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A outra América


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A convenção do Partido Republicano, em Nova York, que aclamou Bush, não foi apenas um ato gratuito de provocação. Foi, também, a demonstração de que o país está profundamente dividido, como em nenhuma outra campanha eleitoral do passado.

Não é um John Kerry, um moderado, que suscita esta divisão iredutível: é o ódio a Bush. A incapacidade visceral de milhões de norte-americanos, que se sentem filhos de uma terra de liberdade, para aceitar o fanatismo e o fundamentalismo de Bush e sua equipe. Sua aguda consciência (que, confio, se concretizará) de que a reeleição de Bush constituiria uma catástrofe para os EUA, em primeiro lugar, para o Ocidente (Estados Unidos e Europa) e para o mundo em geral.

Qualquer atento observador das imagens mostradas pela televisão de todo o mundo sobre a manifestação, um dia antes da convenção republicana, pode dar-se conta de que uma realidade muito profunda e inédita surge nos Estados Unidos: a explosão popular dos que detestam Bush e não suportam sua política ultraconservadora estreitamente vinculada ao seu fundamentalismo religioso.

Trata-se de um fenômeno tão evidente, pois há muitas décadas que não se presenciava em Nova York uma manifestação destas dimensões, calculada em 400 mil pessoas, que a estratégia de Bush na convenção se mostrou absolutamente na defensiva e consistiu em esconder dos olhares seus mais conhecidos neocons (neoconservadores), colocando na tribuna oradores menos fanáticos no plano religioso e mais moderados politicamente, como por exemplo Michael Bloomberg, o multimilionário prefeito de Nova York.

O triunfo dos republicanos parece desembocar na realidade de uma “nação em guerra”, o chamado a um patriotismo cego que apresenta Bush como um homem forte, o “presidente ideal em tempos de guerra”. Guerra contra quem e contra o quê? Contra o abominável Saddam Hussein? Passou à história com a celeridade com que desaparecem os déspotas. Contra o terrorismo, obviamente.

Entretanto, o terrorismo se encontra mais forte e ameaçador do que nunca. Efetivamente, depois do dia inicial da convenção, Bush pensou acertar o cravo ao afirmar que “a guerra contra o terrorismo não pode ser ganha”. Então...? Não equivale este franco e súbito desabafo à confissão de que a estratégia de luta contra o terrorismo, baseada na “guerra preventiva”, idealizada, ou se se preferir, atualizada pelo governo Bush, está inteira e totalmente equivocada e superada?

Felizmente, opõem-se a Bush, em geral, as universidades norte-americanas e a flor e a nata da intelectualidade, bem como a maioria dos artistas de várias condições; os desempregados; as minorias étnicas, a maioria dos hispanos, afro-americanos e asiáticos; os pobres; as ONGs; os promotores de causas humanitárias; os defensores do meio ambiente; as associações feministas; os homossexuais; antigos combatentes; algumas das famílias dos falecidos no 11 de setembro e no Iraque; as associações religiosas temerosas do fundamentalismo evangélico de Bush e seus mentores; os pacifistas; e, sobretudo, os que possuem uma visão progressista dos EUA.

O mais inquietante é o auge do fundamentalismo religioso como fator de explicação das opções políticas. Representa um retrocesso de vários séculos em termos de civilização, intolerável, que se tiver êxito destruirá todas as esperanças humanistas que o século XXI possa presenciar. (O autor, Mário Soares, foi presidente de Portugal)

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