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Jovens adiam planos de cursar faculdade

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 5 min

O operador de máquinas fotocopiadoras João Carlos Cesário vai concluir o ensino médio neste ano e não pensa em prestar vestibular. O motivo: falta de recursos financeiros. O jovem, de 20 anos, que sempre estudou em escola pública, tem uma renda mensal de um salário mínimo e não encontra alternativas para arcar com os custos de uma instituição de ensino superior particular. Ao mesmo tempo, considera-se despreparado para disputar uma vaga nos concorridos processos seletivos das universidades públicas.

“Eu não tenho condições de pagar uma faculdade, por isso não vou nem tentar”, resume.

Assim como Cesário, que queria cursar Medicina Veterinária, muitas pessoas desistem ou adiam o projeto de uma faculdade pelo mesmo motivo. Na semana passada, o governo federal anunciou que deve levar cerca 300 mil estudantes de baixa renda ao ensino superior nas universidades privadas, por meio do programa Universidade Para Todos (ProUni) (leia texto abaixo). O programa, que vai conceder bolsas de estudo integrais e parciais de 50%, abre novas perspectivas para jovens como Cesário e José Dinis Júnior, 18 anos, estagiário do Departamento de Água e Esgoto (DAE).

Dinis Júnior, que sempre estudou em escola pública e ganha aproximadamente um salário mínimo, concluiu o ensino médio em 2003, passou em dois vestibulares de universidades particulares, mas desistiu de matricular-se no curso de educação física por conta do valor da mensalidade. A renda da família de Dinis Júnior, que inclui quatro pessoas, não ultrapassa R$ 1 mil. “Mas eu não desisti de fazer uma faculdade”, garante o estagiário.

Para a auxiliar de escritório Danielle Swenson, 18 anos, que terminou o ensino médio em 2003, é preciso mais do que esforço para arcar com o ‘preço salgado’ das mensalidades das instituições particulares.

No ano passado, ela tinha o interesse de cursar Ciências Contábeis mas, diante das dificuldades, adiou o projeto. “O preço (da universidade particular) não era acessível”, diz a auxiliar, que ganha cerca de R$ 500,00.

“Não dá para eu fazer faculdade e ajudar na minha casa. Eu colocaria o meu salário inteiro na faculdade”, completa. Esse ano, Danielle afirma que está estudando por conta própria para enfrentar o vestibular da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Mas ressalta que considera a concorrência desleal. “Se você olha as universidades públicas só têm pessoas que fizeram cursinho ou escola particular. É raro quem conseguiu sair do Estado e depois entrou nas públicas”, acredita a estudante.

Trancando a matrícula

Suando a camisa, a auxiliar-administrariva Ana Graziela de Deus, 24 anos, chegou a cursar dois anos de matemática em uma universidade de Bauru, pegando poucos créditos e pagando 40% do valor da mensalidade, por meio de um programa de financiamento estudantil. “Eu não poderia pegar todos os créditos porque mesmo com a bolsa ficaria muito pesado para pagar”, diz a auxiliar, lembrando que cursava apenas três disciplinas por semestre e, nesse ritmo, demoraria quase o dobro do tempo para finalizar o curso.

No segundo ano da universidade, Ana Graziela perdeu o direito ao programa e não encontrou alternativas de bolsa dentro da instituição para continuar estudando. Seu salário na época era de aproximadamente R$ 480,00, e não cobria sequer o valor da mensalidade. A auxiliar administrativa trancou a matrícula e, para não deixar de estudar, recorreu a um curso técnico em contabilidade.

“Foi uma alternativa que eu encontrei de tentar fazer algum curso e não parar de estudar”, conta. “Mas eu busco isso: tentar arrumar um emprego melhor com esse curso técnico, ganhar melhor e pagar uma faculdade mais para frente”, completa.

Também o morador de Bauru Eduardo Santos, 22 anos, freqüentou o curso de educação física por 10 meses e trancou a matrícula, por falta de condições de pagamento.

“Eu trabalhava no comércio e estudava, mas eu não consegui manter (a universidade). Eu tentei entrar no Fies (Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior), mas não consegui. Então, para não ficar devendo, fui obrigado a trancar a matrícula”, afirma Santos, ressaltando que fez o ensino médio na rede estadual e não se sentia preparado para concorrer a uma vaga na universidade pública.

O JC tentou conseguir junto às instituições particulares de ensino de Bauru uma estimativa do número de alunos que trancam a matrícula por falta de recursos financeiros. Até o fechamento desta edição, apenas a Faculdade Fênix deu retorno à reportagem. Segundo a instituição, neste ano, 7,73% dos alunos cancelaram a matrícula por esse motivo.

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Dívida

O auxiliar financeiro Juliano Pavani, 28 anos, chegou a cursar quatro anos da faculdade de direito, mas abandonou o curso, depois de acumular uma dívida de cerca de R$ 5 mil com o atraso no pagamento das mensalidades. Pavani trancou a matrícula há cerca de três anos e ainda continua quitando sua dívida junto à universidade.

O auxiliar financeiro afirma que sua meta é formar-se em advocacia, entretanto não descarta a possibilidade de fazer antes um curso mais em conta.

“Eu poderia cursar administração de empresas, para tentar ter um futuro melhor, para daí cursar direito”, planeja. “Quem não tem alguém que banque ou quem não tem uma bela de uma renda tem que fazer caminhos alternativos para chegar onde quer”, conclui o auxiliar, que tem renda mensal de R$ 650,00.

Na avaliação de Pavani, a própria alternativa de financiamento estudantil é um procedimento burocrático e de difícil acesso para muitos estudantes. “Infelizmente, hoje é muito difícil o acesso ao ensino superior”, diz.

O diretor-geral da faculdade Fênix, Ademir Lopes Correia, reconhece as dificuldades dos estudantes de baixa renda em manterem-se em instituições privadas.

“Muitos prestam vestibular e ingressam nas instituições privadas e acabam não dando continuidade (ao curso) pelo fato de não ter recursos financeiros para quitar a mensalidade”, diz.

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