Estamos em plenos Jogos Paraolímpicos na Grécia. Milhares de atletas estão competindo para chegar na frente, subir ao pódio, superar marcas e cantar, emocionadamente, os hinos de seus países. E lá está o Brasil 100% verde-amarelo, representado pelos nossos cegos, paraplégicos e outros portadores de necessidades especiais. E isso tem tudo a ver comigo, com você! Por que? Porque esse é um momento mágico que nos oferece uma rica reflexão sobre nossas vidas de corpos integrais, de saúde dita “perfeita”.
Gostaria de dizer, especialmente para você leitor, que está em fase de grandes transformações em sua vida, em sua empresa, em sua família; para você, que precisa bater metas, superar concorrentes no mercado, no vestibular ou na fila do emprego, que a vida é uma paraolimpíada onde nós vencemos, não apesar de nossos limites, mas por causa deles. Aprendemos que, para vencer, o primeiro adversário a ser batido é o medo, a valorização excessiva dos limites e a desvalorização das próprias forças.
Os portadores de necessidades especiais, que estão disputando as Paraolimpíadas na Grécia, com certeza, aprenderam em suas vidas a desprezar o impossível e superar limites, praticamente intransponíveis para muitos de nós, que temos os dois braços, as duas mãos, as duas pernas, os 20 dedos... Enfim, tudo em cima! Não sabendo que era impossível, eles foram até lá e venceram seus limites. Mesmo que não venham a colocar qualquer medalha sobre seus peitos, eles já são vencedores.
Entre dezenas e dezenas de exemplos da última Paraolimpíada, realizada em Sidney na Austrália, lembro-me daquele cidadão do mundo, amputado de uma perna, com perna mecânica, vencendo os 100 metros rasos em 11 segundos, só pouco mais de um segundo praticamente acima da melhor marca daqueles que correm com as duas pernas. Recordo-me de um chinês que chegou em segundo nos 100 metros nado livre, nadando sem os dois braços, enquanto os outros competidores tinham pelo menos um braço.
Recordo-me de tetraplégicos, portadores de paralisia cerebral, cegos, amputados de braços e pernas superando e vencendo emocionadamente os obstáculos, seja nos esportes individuais ou coletivos. E você pensa que por isso a Paraolimpíada é um evento triste, marcado pela tragédia, pelas perdas do passado? Engano! Pelo contrário. Esse evento mostra cada um dos competidores provando, na alegria, a capacidade de viver dentro desses limites, não se submetendo a eles. Alguns até riem de forma bem resolvida dos próprios limites, indo em frente, mesmo que se arrastando.
E aí eu fico pensando em você leitor, em mim, em nossas famílias, em nossos colegas de trabalho, em nossos irmãos da comunidade. Fico meditando sobre o quanto nós precisamos acreditar mais em nós, o quanto nós temos tudo e muito mais para alcançar o sucesso, para alcançar-nos dentro de nossos corações e nossas mentes; para alcançar o coração e a mente dos mais próximos a nós, no diálogo, no perdão, na superação do erro, na derrubada dos muros.
Lembro-me de um amputado das duas pernas “se arrastando”
com fé e coragem rumo à vitória numa das modalidades.
Fico a pensar o quanto nós precisamos, muitas vezes, “arrastar” o passado de nossas relações e caminhar altivamente em direção ao outro para encontrá-lo, pedir e conceder perdão. Fico a pensar o quanto precisamos arrastar para fora de nós a arrogância, o orgulho, as mágoas e os ressentimentos, para reerguer nossas vidas e a vida do outro.
Entenda aqui especialmente a vida dos seus mais próximos, que você precisa “arrastar” para cima, para que possam reerguer, com coragem e fé, a auto-estima e a autoconfiança e a autocompreensão. Pense nisso também: mesmo que você tenha a certeza de que é o outro que deva fazer tudo isso, tome a frente com essa atitude corajosa, emocione-o, reerga-o e atravesse a linha de chegada da vida com ele.
Enfim, fico a pensar o quanto nós somos muito mais deficientes que aquelas pessoas, quando nos deixamos “amputar” pelos problemas, quando nos deixamos “cegar” pelo ódio de alguém, quando nos deixamos “paralisar cerebralmente” pelo orgulho, quando nos deixamos “ensurdecer” pela falta de disposição em ouvir conselhos ou uma palavra amiga. Pense nisso e viva dias melhores em sua vida e seja o maior vencedor de si próprio para ser o maior vitorioso do mundo.
O autor, Pedro Antonio Domingues, é professor dos cursos de graduação das áreas de ciências gerenciais, humanas e sociais da Universidade São Francisco