“Levando na cacunda um saracuá única arma usada contra as sucuris que eram abundantes na região, seu Mané Labrego corria os banhados, varjões e vazantes nas margens do rio Tietê ainda não represado pelas hidrelétricas em meio aos poucos matos que sobraram nas fazendas de café, entre Arealva e Boracéia.
Seu Mané Labrego era um tipo fanfarrão conhecido nas colônias de café, diziam que ele era fraco das idéias, pois almoçava aqui, jantava acolá e pousava onde escurecia. Ninguém lhe negava um prato de comida ou um cantinho onde pudesse pernoitar, pois era uma alma inofensiva, seu único defeito era sua verborragia compulsiva. Onde chegava já ia dizendo que era castrador de animais, independente da espécie ou tamanho, de gato a boi, e continuava o falatório com palavras desconexas até que alguém lhe oferecesse canivete, fumo e palha para fazer um cigarro, ou um cigarro de papel que após acender partia fumegante.
Numa manhã gelada de agosto, as canaranas e taboas coberta de orvalho eram como candial, o sol vencia lentamente a espessa névoa que subia das correntezas do Tietê, verdadeiro ninho de dourados. Já era possível ver as primeira garças em seus vôos quase tocando as águas em busca da primeira refeição, quando seu Zélio, um velho morador de Arealva, ajeita as tralhas no barranco e de forma pachorrenta busca um lugar para sentar e preparar a primeira isca.
Ao olhar sobre bornais e matulas que compunha sua tralha, percebe a chegada brusca de uma perereca, não vacila. Junta o quase girino pelos gorgomilos e mete-lhe o anzol goela abaixo.
Com a habilidosa canha maneja o caniço e arremete o anzol nas ligeiras águas que parece cair na boca de um dourado. Inicia-se uma fremente luta entre peixe e pescador, seu Zélio tenteou quase 15 minutos antes de ver suas primeiras barbatanas amareladas brilharem ao sol. Era um dourado de tamanho nunca visto! Sua cor amarela fazia jus ao nome, o peixe parecia banhado em ouro. Tomado pela euforia do grande feito, seu Zélio arrasta aquela raridade até o barranco com muita dificuldade, tira-o das águas, coloca num saco de estopa, junta as tralhas e dá a pescaria por encerrada.
Na entrada da vila, no primeiro boteco, pára para exibir o verdadeiro troféu, tira da costa o saco com o peixe que é imediatamente rodeado de curiosos, as opiniões variavam quanto ao peso, mas eram unânimes quanto a cor e porte, pois ninguém tinha visto um dourado daquele tamanho.
Enquanto isso, Zé Labrego deixava a vila atormentado por um grupo de meninos que ao vê-lo já gritava: ‘heeeiii capador de grilo!’. O pobre homem, nervoso e cabisbaixo, ao passar pelo último gole percebe o grupo de pessoas e rapidamente aproxima-se, o que é observado pelo seu Zélio pescador, que grita com Labrego: ‘vem ver o douradão que eu fisguei’.
Zé Labrego vai abrindo a roda de curiosos e ao ver o enorme dourado, espantado com o tamanho do peixe, não deixa por menos: ‘num fais nen treis meis que eu capei esse dorado e sortei pa engordá’.”
Lázaro Carneiro é poeta, pescador e contador de histórias