Enquanto muitas pessoas lutam para controlar seus gastos, eles jogam dinheiro fora. Não literalmente, mas quase. Queimam seus salários com compras, serviços, cursos e atividades que muitas vezes não serão aproveitados sequer uma vez. Em academias, escolas e cursos, não é nada difícil ouvir histórias de pessoas que fazem sua matrícula, freqüentam uma ou duas aulas e desaparecem. A falta de tempo é a desculpa mais comum.
É o caso da professora Inará Damacena. Ela conta que, por dois anos, tentou iniciar uma rotina de atividades físicas em uma academia, mas o dinheiro investido com as matrículas e mensalidades acabava se tornando um gasto em vão.
“Eu sempre começo o ano com vários propósitos, e entre eles, de me exercitar. Eu faço a matrícula e acredito que vou conseguir seguir com os exercícios, mas aparecem compromissos profissionais e eu acabo desistindo justamente pela falta de tempo”, argumenta.
Na opinião de Inará, seu problema é colocar outros compromissos como prioridade maior do que os exercícios e seu bem estar físico. “Eu procuro investir na academia justamente para me obrigar a freqüentar, para valer aquele dinheiro, mas acaba sendo um gasto à toa”, observa.
De acordo com Sílvia Biazotto, que é auxiliar administrativa de uma grande academia de Bauru, a ocorrência de desistências de alunos faz parte do dia-a-dia da empresa, apesar de não ser um número representativo. Ela estima que cerca de 5% dos alunos matriculados deixam de freqüentar o espaço quando ainda poderiam usufruir de períodos já pagos.
“Como temos planos trimestrais, muitas pessoas deixam o período pago. Só que algumas vão duas ou três semanas e não aparecem mais. Depois, ligam dizendo que pagaram e não aproveitaram e pedem para ter o dinheiro devolvido”, diz.
Sílvia explica que os contratos da academia são claros e que o investimento pode ser devolvido em casos de doença, por exemplo. “Mas se não tem um atestado, a pessoa vai perder o que já pagou. Por isso, ela tem de ver se está disposta a se exercitar, se os horários permitem. Os interessados podem conhecer a academia, os professores e fazer uma avaliação física antes, para começarem animados”, recomenda.
Sem dar valor
De acordo com Ana Lúcia Bibar, gerente de marketing de uma escola de idiomas de Bauru, uma situação comumente observada é de pessoas que iniciam os cursos mas não aproveitam tudo o que poderiam nas aulas e no ambiente da escola. “Os adolescentes têm muito esse perfil, principalmente os de classe econômica mais favorecida. Os pais pagam tudo certinho mas os filhos faltam às aulas e não aproveitam o curso de verdade. E quem está jogando dinheiro fora são os pais”, comenta.
Outra situação lamentável, segundo Ana Lúcia, é de bolsitas e estudantes que têm convênio de descontos em suas mensalidades e tampouco aproveitam os cursos. Normalmente, a maior taxa de desistências é sentida no final dos semestres.
“Temos experiência para lidar com esse tipo de coisa. Com os adolescentes, procuramos avisar os pais. Com os adultos, que desistem mais no final do semestre, geralmente tentamos fazer os últimos meses mais dinâmicos, com atividades extra-classe justamente porque há esse fato do aluno desanimar. Nossa evasão é baixa justamente por esse trabalho”, explica.
Na opinião de Margareth Leme de Macedo, que é diretora de outra escola de idiomas da cidade, o mais importante para uma pessoa que deseja iniciar um curso ou uma atividade é conhecer o local onde vai investir seu dinheiro.
“Quando um aluno vem para nossa casa, procuramos fazer aulas demonstrativas e temos uma hombridade muito grande de passar todas as normas da escola, inclusive o que aconteceria num caso de desistência. Não queremos esconder ou não falar para não perder uma matrícula”, argumenta. Ela observa que, nessas condições, os alunos iniciam o curso conscientes de todas as características da escola e também do contrato de prestação de seviços.
Consumo excessivo
A universitária Patrícia Guedes conhece seu lado consumista e sabe que deve evitar promoções, liquidações ou qualquer tipo de “auê” em lojas de roupas, principalmente. “Antes, não podia ver uma faixa colorida numa loja que já estava no caixa com meu talão de cheques na mão”, brinca. Atualmente, ela tenta recuperar suas finanças depois de um surto em uma loja de sapatos.
“Meu guarda-roupas é lotado, não cabe um cabide! E eu tenho consciência que comprei muitas daquelas roupas sem pensar se eu ia usar ou não. Tem coisas que já até saíram de moda, ou coisas que eu não usaria nem se estivessem na moda (risos), que comprei e nunca usei. Hoje, tento me controlar”, assume.
Apesar de se considerar uma pessoa econômica e ponderada, a jornalista Roseane Andrelo já se excedeu em uma compra e se arrependeu depois. O motivo: uma esteira mecânica para caminhar. “Financeiramente e mesmo por questão de respeito ao meio ambiente, só compro o que preciso e ainda pesquiso preço, tomo cuidados. Mas houve um descuido, quando comprei essa esteira”, relata.
Na ocasião, segundo Roseane, ela não tinha tempo de freqüentar academia e a esteira, a seu ver, seria a solução dos problemas, o instrumento que possibilitaria os exercícios físicos em casa.
“Nunca funcionou! Eu até tive alguma boa vontade para tentar usar, mas realmente não deu certo. Você precisa de estímulo. Eu tirava ela de onde estava, colocava em frente à TV e fazia um pouco. Quando meu marido chegava em casa, ele não gostava daquele negócio na sala e colocava de novo em um cantinho, mas a esteira tem de ficar onde você tropeça nela, para não esquecer de fazer exercício”, brinca.
Atualmente, o equipamento já está ultrapassado, danificado e serve apenas como apoio de vasos e xaxins no quintal da residência. “Nos mudamos há pouco tempo e um dia ainda vou pendurar os xaxins na parede. Por enquanto, eles ficam lá e a esteira também”, diz, decidida.