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Oficiais de Justiça arriscam vida pela lei

Diego Molina
| Tempo de leitura: 4 min

O cotidiano dos oficiais de justiça do Estado é marcado por situações diferentes a cada entrega de intimação ou cumprimento de mandado. Dia após dia, dentre as surpresas reservadas pela profissão, não ficam de fora o medo, a comoção e os perigos pelos quais passam estes trabalhadores que chegam a arriscar a própria vida em nome do poder judiciário.

Atualmente, eles são cerca de 100 oficiais em Bauru e aproximadamente 7 mil em todo o Estado. Na última sexta-feira, após 87 dias de greve por reajuste salarial e melhores condições, eles voltaram ao trabalho. Uma das principais reivindicações do movimento era a contratação de novos oficiais, já que cada um cumpre em média de 200 a 300 mandados por mês.

Desde que começou a trabalhar como servidor público há 18 anos, Wagner Barros de Moraes conta que já passou por diversas situações estressantes, algumas inclusive onde sua vida esteve em risco. “Nós somos muito ofendidos”, diz.

Ele conta um episódio em que foi ameaçado por um homem armado, enquanto cumpria um mandado de separação de corpos – liminar requisitada por um dos cônjuges para que o outro se afaste do lar, geralmente por motivo de violência.

“Temos de retirar a pessoa da casa, mesmo que seja à força. O rapaz que deveria sair encostou um revólver calibre 38 na minha cabeça e dizia ‘Daqui eu não saio. Construí essa casa com minhas mãos e minha esposa não vai me colocar para fora’. Fiquei ali parado, com uma calma quase sobrenatural, tentando convencê-lo a sair”, relata.

Depois do episódio, Moraes comenta que sua vida e a maneira como vê a profissão mudaram, já que o medo passou a estar presente em todas as situações. “Temos muitos colegas doentes, com síndrome do pânico e depressão justamente por passar por situações extremas e traumáticas como essa”, justifica o oficial.

De acordo com Vlademir José Justo, na profissão há 14 anos, os oficiais não são preparados para o trabalho. Ele indica que a maioria dos servidores de Bauru tem formação universitária, grande parte em direito, e que têm de utilizar desse conhecimento para poder desenvolver suas funções.

“O que forma o oficial é o dia-a-dia. A bagagem que você adquire na faculdade ajuda, mas na rua é completamente diferente. Cada pessoa te recebe de uma forma, porque o oficial é quase um anjo mau. Em 90% das vezes, ele não traz notícias boas”, ressalta.

Para Moraes, oficial de justiça há 18 anos, seus colegas de profissão são a “mão mais longa” do juiz atuando nas ruas. Ele aponta que, ao lidar diretamente com a população, os oficiais precisam atuar também como conselheiros e terapeutas. “Nós emprestamos nossos ouvidos para as pessoas. É um trabalho estressante, onde você precisa ter muito jogo de cintura e auto-controle”, comenta.

Hostilidade

Além de enfrentar ameaças e perigos, esses profissionais ainda têm de se deparar com a hostilidade encontrada em bairros nobres e condomínios de luxo. Na opinião de Moraes, cumprir mandados ou entregar intimações para pessoas de classe social mais elevada chega a ser mais complicado.

“Trabalho na área cível, com execuções, despejo, busca e apreensão, e tudo se torna mais difícil em função dos locais onde essas pessoas vivem. Você é atendido por empregados ou porteiros e ouve que a pessoa não está em casa ou não vai nos atender, ou senão nos tratam muito mal, sem qualquer educação, como se a culpa do processo fosse nossa”, observa.

Além de contarem com apoio e escolta policial apenas nos casos mais complicados, como cumprimento de mandados de prisão, desocupação de área e reintegração de posse, os oficiais ainda são obrigados a trabalharem com os próprios veículos. Para tal, recebem uma complementação no salário. “Andamos por toda a cidade e vemos como Bauru está sofrida, como falta perspectiva nas periferias e isso se reflete diretamente na agressividade, na violência, no uso de drogas e álcool”, completa Justo.

“Alguns dizem que essa é uma profissão ultrapassada, mas quem diz isso não sabe o que fala. Não há e-mail ou Internet que possa substituir um oficial em uma diligência. Não somos meros entregadores de aviso, muito pelo contrário. Arriscamos nossa vida para que a lei seja cumprida”, finaliza Justo.

Emoção

O oficial de justiça Vlademir José Justo lembra de um caso que lhe marcou profundamente. Ele conta que ia realizar a remoção de uma criança que estava com o pai, em decorrência da reversão da guarda para a mãe. “Quando a criança percebeu que ia sair da esfera paterna, começou a se morder e autoflagelar. Tínhamos apoio policial, mas a situação ficou muito complicada, numa diligência que demorou quatro horas e meia”, aponta.

Ele relata que o pai da criança começou a perder a razão e, ao perceber a gravidade da situação e a possibilidade do próprio pai ser preso, a criança se acalmou. “O pai estava tomando atitudes violentas e a criança parou e falou para ele que iria com a mãe, se era necessário, e entrou no carro sem questionar mais nada. Você fica envolvido com tudo, por mais que tente ficar alheio ao que está ocorrendo”, conta Justo, emocionado.

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