RH & Tendências

Demissão traz desafios ao profissional

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 5 min

O mês de julho de 2001 provavelmente não será esquecido pela analista de recursos humanos (RH), Anelise Magalhães (nome fictício), 49 anos. Depois de trabalhar por mais de cinco anos em uma rede de supermercados de Bauru e projetar toda sua carreira profissional na empresa, Anelise recebeu a notícia de que havia sido demitida. Na época, a rede passava por uma reestruturação e o departamento da analista estava sendo terceirizado.

Depois de dois anos, a profissional conseguiu uma nova vaga no mercado de trabalho, mas não esconde que, antes disso, viveu momentos de revolta e depressão por conta do desligamento da antiga empresa.

“Eu nunca imaginei que isso fosse acontecer. Durante o primeiro mês minha vida era chorar e falar: por que fizeram isso?”, relata. “Eu consegui superar, mas foi difícil. Eu tive que reestruturar a minha vida”, completa.

Superar o trauma de uma demissão não é tarefa fácil, mas é a primeira lição de casa para quem quer encontrar novamente seu lugar no mercado de trabalho. É o que afirma ao JC o especialista em RH Paulo Pereira, autor do livro Profissionais & Empresas, publicado pela editora Nobel.

Segundo o autor, diretor-proprietário de uma empresa de assessoria em recursos humanos, a demissão normalmente traz, num primeiro momento, desmotivação e constrangimento para o profissional, daí a necessidade de recuperar a confiança e auto-estima.

“Muitas vezes a demissão não é responsabilidade do profissional que foi demitido, é uma variável da própria empresa. Porque a empresa teve uma queda de produção, de vendas, de faturamento, ou porque surgiu um concorrente com uma tecnologia um pouco mais qualificada”, diz o especialista, destacando que todo o trabalhador está sujeito a esse processo. “É algo normal no cotidiano das pessoas e das empresas”, completa.

Além do desgaste emocional causado pelo desligamento do trabalho, Pereira afirma que, com a demissão, o profissional deve enfrentar outro grande desafio: a necessidade de contenção de gastos e a readequação do orçamento familiar à nova realidade.

“Ele (desempregado) tem que ter consciência de que a renda acabou, que ele não pode continuar gastando como antes e deve fazer uma administração financeira inteligente”, diz.

Planejamento

Antes de sair em busca de uma vaga no mercado, Pereira aconselha o profissional a fazer um planejamento, ponderando quais seriam as melhores alternativas de trabalho e considerando não apenas as questões de ordem financeira, mas também a possibilidade de satisfação profissional.

“Será que não é a hora dele olhar para fora da região e ver que, de repente, a profissão dele está supervalorizada em outra cidade?”, questiona. “Será que não é a hora dele se reciclar antes de voltar para o mercado ou até de mudar de carreira?, completa.

O especialista ressalta que o emprego formal não é a única alternativa de rendimento para o trabalhador. Segundo ele, há casos de experiências bem sucedidas de pessoas que, depois de desempregadas, apoiaram-se em atividades alternativas. Um exemplo seria a participação em cooperativas de trabalho.

Caminho das pedras

Depois de feito todo o balanço pessoal, a hora é de elaborar um currículo objetivo, dentro dos padrões exigidos pelo mercado. O primeiro contato que o profissional tem com a empresa, em geral, é por meio do currículo, por isso ele deve ser escrito de forma cuidadosa e ter apresentação adequada.

“Cumprida essa etapa, o profissional deve ir para o caminho das pedras, que é fazer a visita nas empresas, nas consultorias, ou seja, ele tem que fazer do desemprego dele um emprego. O tempo que ele vai usar é procurando emprego. Ficar realmente oito horas por dia procurando trabalho, de uma maneira muito determinada”, orienta.

Determinação à parte, na opinião do mecânico Gladston (que preferiu ter apenas o primeiro nome identificado), 29 anos, conseguir uma vaga no mercado de trabalho é um processo marcado por dificuldades, que exige mais do que uma postura pró-ativa. Ele está há cerca de oito meses procurando emprego, já enviou uma dezena de currículos, mas não obteve resposta e hoje sobrevive de alguns “bicos”. “Hoje em dia está muito difícil, não basta apenas ser esforçado”, resume.

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“Não”

Ouvir muitas vezes a palavra “não”, ser reprovado em processos de seleção e perder a conta do número de currículos já enviados, são frustrações previstas durante o processo de recolocação no mercado de trabalho.

“A pessoa tem que entender que, às vezes, não é aprovada não porque ela não é boa, mas porque realmente o que a empresa precisa é de outro perfil de profissional. Como as pessoas não sabem muito isso, fica forte aquela questão de derrota e a auto-estima fica muito baixa”, afirma a psicóloga Daniela Gibin Duarte, diretora de uma empresa de recursos humanos (RH) de Bauru.

Segundo a psicóloga, as sucessivas reprovações fazem com que alguns candidatos já participem do processo seletivo de uma empresa com uma postura de derrota. Em alguns casos, chegam a enfrentar um quadro depressivo e não se sentem confiantes para buscar uma vaga no mercado de trabalho.

Na avaliação da psicóloga, apesar das frustrações, é importante que as pessoas que estão à procura de emprego não se isolem e mantenham uma rede de relacionamento social intensa. “Quanto mais afastado socialmente você estiver, maior dificuldade de encontrar um emprego você vai ter”, orienta.

Daniela também lembra que o mercado de trabalho tem exigido dos profissionais qualificação e reciclagem dos conhecimentos.

“Qualquer tipo de acréscimo em termos de conhecimento já vai agregar valor em relação ao desempenho dele na competição com os outros candidatos”, diz a psicóloga. Ela lembra que há cursos de capacitação gratuitos ou de custo mínimo oferecidos pela prefeitura ou instituições como o Sebrae e Senai.

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