Cultura

Dupla preserva a tradição caipira

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 4 min

Antônio Borges de Alvarenga, o Cacique e José Pereira de Souza, o Pajé são o que se pode verdadeiramente se chamar de músicos de raiz. Paulistas de nascimento (Cacique nasceu em Monte Aprazível e Pajé em Itapuí), os dois são descendentes de índios do Mato Grosso do Sul e, por isso, divulgam as tribos de de lá.

As origens de ambos estão presentes na sua música, cujas letras falam da zona rural e os ritmos (cururu, corta-jaca, chibata, catira, toada, moda de viola e rastapé) são os mais regionais possíveis, e também na maneira como eles se vestem em público, com colares, cocares e pintura no rosto.

Divulgando o último disco, “Duas violas, Duas vozes, Um só Coração”, lançado em janeiro deste ano, Cacique e Pajé estiveram em Bauru no final de agosto para duas apresentações. Na oportunidade, estiveram na Aldeia de Araribá, em Avaí, onde puderam cantar e assistir ao show da Teraguá Banda Show, formada por índios do local e visitaram o JC, onde concederam uma entrevista. A seguir, os principais trechos.

Jornal da Cidade - Quando vocês começaram a gravar como Cacique e Pajé?

Cacique - Nosso primeiro disco foi em 1978, na Chantecler. Fomos apadrinhados pela dupla Tonico e Tinoco. Nesse disco fizemos a música que foi sucesso “Pescador e Catireiro” e, daí pra cá fizemos nove discos na Chantecler. Daí o primeiro Pajé (Roque Pereira Paiva) teve um derrame e ficamos nove anos sem gravar. Em 1994 ele faleceu. Eu fiquei um ano sem gravar e em 1996 fiz um disco com o José Pereira de Souza, um músico que tocava com a gente, no lugar do Pajé. Mas a dupla não deu certo, ele não podia viajar comigo. Daí troquei de parceiro de novo e agora com essa dupla (com José Pereira de Souza) temos seis anos.

JC - Quantos discos vocês já gravaram?

Cacique - No total, já são 15 trabalhos desde o começo, com a promessa de lançarmos muitos outros. Esses 15 são fora a minha carreira anterior. Gravei outros discos com outras duplas desde 1970.

JC - O campo e a cultura indígena sempre estiveram na maneira de vocês se vestirem e nas letras das músicas?

Pajé - Sim porque a gente é descendente dos índios. A gente quer divulgar o índio e o homem do campo.

Cacique - Quando eu fiz a dupla, em 1978, não se falava de índio na televisão, nos jornais. Só se divulgava o índio americano. A gente foi fazer shows na USP e tinha aluno e professor que perguntava: “faz tempo que vocês estão no Brasil”. As crianças achavam que a gente conhecia o Daniel Boone, aí a gente tinha que explicar que era do Brasil mesmo.

JC - Hoje ainda existe esse tipo de dúvida?

Cacique - Ainda tem um pouco com o pessoal mais novo, que não conhece a gente.

JC - O que vocês acharam da banda dos índios em Araribá?

Cacique - Nós gostamos muito, eles cantam forró, música de baile e alguma coisa em Tupi-Guarani, foi muito legal. Eles estão fazendo shows, isso é importante.

JC - Vocês já tinham se apresentado para índios antes?

Cacique - Já, várias vezes. Recentemente estivemos em Dourados cantando para os Guaranis. Eles que pediram os shows. A recepção deles é sempre muito boa. Eles não sabem o que fazer para agradar, é duro ir embora. Eles ficam felizes por nós estarmos divulgando eles... Ainda existe muito preconceito.

JC - Você já foi discriminado?

Cacique - Quando eu comecei ia me apresentar na televisão de cocar, colar, sem camisa, do jeito que o índio se veste mesmo. Mas para ir numa Globo tinha que colocar uma calça, não podia ficar de tanga. Eu sofri com isso e a gente sofre discriminação até hoje. Você não vê a gente na televisão. A gravadora gasta muito para colocar o artista na televisão. Nós hoje não temos condições. Antigamente a gente dava dinheiro para a gravadora para eles divulgarem a gente... E nós “damos ‘ibope’”, nós somos raiz, nós somos caipiras.

Pajé - Nós temos alguns amigos que trabalham em canais nacionais de TV a cabo e eles falam pra gente: “nós precisamos de vocês para dar ‘ibope’”. Vamos em vários programas por isso.

Cacique - A televisão antes era boa. Qualquer lugar que você ia te dava cachê. Hoje eles estão querendo cobrar.

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