Política

Personalismo marca programa eleitoral

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 5 min

A propaganda eleitoral gratuita veiculada na TV encerra sua primeira fase nesta quinta-feira, às 20h30, marcada pela divulgação personalista em torno dos principais candidatos a prefeito. Os programas dos candidatos à prefeitura, que terminam amanhã, exploraram o conteúdo na televisão em cima do nome e da trajetória dos prefeitáveis como atributos indispensáveis do produto oferecido ao eleitor para a resolução dos problemas da cidade. De outro lado, a perspectiva de realização do segundo turno pela primeira vez na história local freou a veiculação de críticas ácidas entre os adversários.

A linha personalista continuou sendo a marca do penúltimo programa de televisão que foi ao ar ontem à noite. O PCO de Maria Cristina Romão, porém, repetiu os discursos contra os governos federais de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O partido insistiu na nacionalização do processo eleitoral local, deixando de discutir os problemas locais e apontar soluções.

Caio Coube (PSDB) foi ao ar ontem com o reforço da marca do empresário e administrador de sucesso em sua carreira privada à frente da Tilibra. A aliança “Muda Bauru” tentou contrapor Caio em relação aos adversários colocando-o como “homem moderno”. A estratégia não foi capaz de polarizar a disputa com Tuga Angerami (PDT), como chegou a ser comentado antes do início da campanha.

Mesmo distante da liderança nas pesquisas até esta fase, Caio foi sempre divulgado como a opção pelo novo. Entretanto, esta marca foi misturada à massificação de parceria política com o governo tucano no Estado. No programa de ontem, o PSDB defendeu a idéia de que, endividida, a cidade só iria conseguir obras se o escolhido fosse o preferido pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB).

Para reforçar esta tese, os tucanos resumiram a veiculação de programas que já fizeram parte do pacote de promessas da eleição para governador, como a central de serviços Poupa Tempo e a refeição popular do Bom Prato.

Ao longo da campanha, Caio atacou que Bauru não deveria voltar ao passado. Contudo, a crítica foi comedida, sem apontar diretamente para o alvo pretendido (Tuga). Embora integrante de uma coligação com vários partidos, entre eles o PP de Carlos Braga, os programas tucanos não apresentaram os demais parceiros.

Tuga Angerami (PDT) centralizou praticamente toda a campanha, até agora, em cima de suas realizações como prefeito ou conquistas como deputado federal. A estratégia pareceu ser a de convencer o eleitor de que o passado seria o verbo mais adequado para a definição do voto, a partir da experiência.

A escolha gerou programas com imagens antigas e de qualidade discutível, onde não foi possível precisar a época das realizações. A opção levou adversários a tentar mostrar Tuga como ultrapassado. De seu lado, porém, os coordenadores da aliança “Juntos por Bauru” apostaram que o trauma da população gerado pela crise político-administrativa enfrentada nos últimos anos indicariam a busca pelo “porto seguro” na hora de votar.

Voto religioso

Luiz Carlos Valle (PSB) foi apresentado ao público em duas fases distintas. Na primeira, desfilou propostas de campanha para diferentes áreas, mas pecou ao personalizar que apenas as suas idéias eram inovadoras e capazes de resolver. O personalismo marcou tanto a campanha a ponto da aliança rachar ainda no início do processo eleitoral.

O isolamento em relação aos seus próprios parceiros levou Valle a massificar o discurso religioso no rádio e na televisão. O resumo da segunda parte de seus programas sempre circulou tendo como conteúdo o engenheiro e o evangélico. O discurso religioso misturado à política atraiu devotos, de um lado, mas afastou as demais camadas sociais, seja pelo pluralismo, seja pela resistência contra a estratégia de impor a consciência do voto a partir da imposição sedimentada nas escritas bíblicas.

Clodoaldo Gazzetta (PV) arriscou uma fórmula que oferece o rompimento com o modelo político atual. A proposta de administrar a cidade a partir de conselhos populares, entretanto, parece não ter sido compreendida ou aceita pela maioria da população. Ontem, Gazzetta repetiu sua tese de recuperar fundos de vale bebendo um pouco de água direto de um ribeirão que ele próprio informou estar contaminado.

Estela Almagro (PT) surpreendeu com volume de campanha tanto na TV quanto nas ruas. Porém, em detrimento a isso, a escassez de financiamento parece ter levantado pergunta sobre a origem dos recursos que permitiram esta estrutura. A exemplo de Caio com os tucanos, Estela também explorou a relação política com o governo federal, de comando petista, como a solução para a obtenção de recursos.

De outro lado, a petista viu os dissidentes da própria legenda, sobretudo do PSTU, desfilar críticas contra a postura do governo Lula (PT) frente aos trabalhadores. O desfile de ministros e líderes nacionais petistas na TV continuou durante todo o processo eleitoral, entre eles figuras como o ministro José Dirceu e o senador Eduardo Suplicy.

A aliança “Amor por Bauru” também não mostrou todos os seus parceiros eleitorais, como os grupos com identificação política ligada ao ex-prefeito Antonio Izzo Filho. Embora na disputa direta com o tucano Caio Coube à busca do segundo turno, a petista encerra a campanha na TV sem ter tentado a comparação crítica com seu adversário mais direto até este momento. Paralelo a isso, viu alguns de seus adversários afirmarem que PT e PSDB assumem conteúdo idêntico, de cunho neoliberal.

Sandro Fernandes (PSTU) preferiu a campanha ideológica, de conteúdo socialista, acreditando que Bauru pode, ainda, ser uma célula daquilo que se viu em Cuba ao longo da história.

Já Antonio Sérgio Marsola (PPS) tentou, em vão, se descolar do governo municipal. O ex-chefe de Gabinete de Nilson Costa (sem partido), veiculou vários programas tentando convencer que não era Nilson, que seria mais ágil e firme, caso viesse a assumir o lugar de seu patrão.

Mesmo com pouco tempo na TV, Marsola conseguiu veicular programas que apresentaram conteúdo. Mas a marca de coronel, ao final, parece não ter sido assimilada por número suficiente de eleitores para o colocar na ponta das pesquisas. Se o coronel Marsola não convenceu Nilson a mudar o rumo de sua gestão, o tempo de propaganda na TV também parece não ter caminhado no sentido de que, em sua gestão, tudo seria diferente.

Comentários

Comentários