Cantora, produtora e mais do que nunca compositora, Olivia Hime apresenta hoje à noite na área de convivência do Serviço Social do Comércio (Sesc), o show do seu mais recente CD, “Canção Transparente”, lançado este mês pela Biscoito Fino, gravadora da qual é uma das sócias e diretora artística.
O trabalho se diferencia dos oito discos anteriores de Olivia por trazer apenas letras suas, sendo que uma delas, “Meus Heróis”, ela adaptou de “Whatever Happened to Melody”, de Cynthia Thompson e Jerry Messel.
Com 23 anos de carreira, a cantora decidiu que era hora de fazer um CD autoral. “Fiz questão de fazer um disco com músicas que fiz em várias épocas. É quase um disco de inéditas, porque minhas músicas são quase todas inéditas. Quem mais me gravou foi o Francis (Hime, seu marido), a Simone Guimarães também gravou uma, a Leila Pinheiro... As pessoas pouco conhecem meu trabalho”, diz a Olivia em entrevista por telefone ao JC (leia abaixo os melhores trechos).
Como intérprete, Olivia tem discos elogiadíssimos nos quais ilumina a obra de compositores como Dorival Caymmi (“Mar de Algodão”) e Chiquinha Gonzaga (“Serenata de uma Mulher”), e dos poetas Fernando Pessoa (“Música em Pessoa”) e Manuel Bandeira (“Estrela da Vida Inteira”).
Francis, Maurício Carrilho e Sérgio Santos são os autores das melodias das 14 canções de “Canção Transparente”, que teve seu show de estréia no último domingo, no Sesc da Vila Mariana em São Paulo.
Além do trio, o disco tem participações de Lenine, do Quarteto Maogani, do grupo Tira Poeira, os dois últimos, artistas da Biscoito Fino. “Eu não separei a diretora artística da cantora. Escolhi os artistas da gravadora, que eu conheço o trabalho. Vou para a palco com tudo e achei muito bom o resultado”, diz.
Biscoito fino
“Canção Transparente” é um disco belíssimo. Leve e sereno, que reflete a calma do processo que envolveu a sua produção, com todos os detalhes sendo verificados com cuidado pelo casal Hime. Apesar de trazer músicas já gravadas, o disco soa totalmente inédito por conta de mudanças nos arranjos (11 deles são de Francis, que também assina a produção) como em “Cada Canção” - uma homenagem a Pixinguinha e Raphael Rabello -, “Disfarçado” e a própria “Canção Transparente” que dá título ao CD. Para quem quer conhecer Olivia Hime, não há melhor indicação.
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‘Francis ilumina a minha carreira’
Na entrevista a seguir, a cantora fala do novo disco e afirma que o trabalho ao lado de Francis Hime, com quem é casada desde 1969, só enriquece sua trajetória.
Jornal da Cidade - Por que você decidiu gravar suas composições?
Olivia Hime - Talvez eu tenha me dito: “por que não agora?”. Eu estou ensaiando isso há muito tempo sem achar que era a hora. O disco começou muito a partir de uma idéia sonora. Eu queria um disco transparente intrumentalmente, na maneira de interpretar, não queria nada rebuscado. Eu tinha acabado de fazer uma música chamada “Canção Transparente” para Francis (que a gravou no disco “Brasil Lua Cheia”, de 2003), então essa palavra estava toda hora na minha mente. Há algum tempo que Francis, Kati (Almeida Braga), minha sócia, a Joyce, uma série de pessoas vinha pedindo para eu trabalhar mais o meu lado de letrista. Chegou uma hora que eu falei “por que não?”. De uma certa forma ao fazer um disco autoral eu tenho um compromisso comigo mesma, de me colocar como letrista, de criar essa transparência, de me mostrar dessa forma. Confesso que foi um orgulho, um prazer ver o meu trabalho cantado por mim. Valeu a pena.
JC - Esse disco de alguma maneira muda a sua carreira?
Olivia - Não sei, não foi essa a intenção, mas pode ser que sim. Quis fazer um disco com a Olivia mais presente. Eu produzo meus discos com o Francis, eu canto, eu bolo, gravo dentro da minha própria gravadora, escolho as fotos da capa, eu gosto de trabalhar em cada etapa. Esse disco foi uma forma de estar mais ainda dentro do trabalho porque uma cantora não é só uma voz, é tudo que cerca ela, a escolha do repertório, do arranjo. Nunca tinha pensado se esse disco vai mudar alguma coisa... Talvez sim, talvez as pessoas me olhem por um outro lado, pelo lado criativo mais solitário, que não é só a cantora que está no palco. Provavelmente alguma coisa mude sim, até dentro de mim.
JC - Para quem não conhece a sua carreira, o disco e, conseqüentemente, o show, servem como uma amostra de quem é a Olivia Hime?
Olivia - Sim, com certeza, mas sem querer. Olhando depois de pronto acho que o disco fala bastante do meu universo, do meu modo de viver, dos temas que me escolhem, porque não sou eu quem escolhe os temas, eles é que me escolhem.
JC - O fato das músicas serem de épocas diferentes ajuda a traçar um painel.
Olivia - É verdade, eu olho e vejo um caminhozinho. Por outro lado, acho que tem uma unidade. Mesmo letras de 20 anos atrás que estão no disco fazem sentido dentro do que eu faria hoje em dia.
JC - Até que ponto o Francis influencia a sua carreira?
Olivia - Eu diria que desde que eu nasci. Eu tenho uma extrema admiração pelo Francis. Às vezes as pessoas dizem: “você ser mulher do Francis não é uma coisa ruim, que te abafa”, mas não. Ele ilumina a minha carreira, eu aprendo com ele a cada dia, a gente troca muita informação. Diz ele que aprende comigo também. Sem dúvida ele influencia muito, a gente conversa muito, eu estou o tempo inteiro debatendo, mas o que ele diz eu ouço de uma forma especial. Ele tem uma sensibilidade fabulosa.
• Serviço
Show com Olivia Hime, hoje, às 21h30, na área de convivência do Sesc. Avenida Aureliano Cardia, 6-71. Informações: (14) 3235-1750.