Um dos efeitos dos atentados de 11 de setembro foi o de inibir o processo de globalização. Na década de 90, a globalização foi em grande parte impulsionada pelo crescente movimento de convergência política e pela solução de muitos problemas de longa data, desde a divisão de Berlim, da Alemanha e da Europa em campos comunista e capitalista até o fim do apartheid na África do Sul. Subjacente à lógica da globalização estava a idéia de que as fronteiras nacionais estavam perdendo importância na medida em que a quantidade de transações através delas aumentava espetacularmente, não só em matéria de mercadorias como também em serviços, operações financeiras e investimentos.
A partir do 11 de setembro houve uma mudança de direção. Os limites nacionais são de novo uma preocupação central. Um exemplo concreto disso é o fato de que para entrar nos EUA está muito mais difícil agora do que há dez anos. Em todo o mundo há muito mais obstáculos para o movimento das pessoas e dos bens do terrorismo internacional.
A longo e médio prazos, a globalização e o reforço das fronteiras nacionais são incompatíveis. Esta última tendência, naturalmente, tem apenas três anos, de modo que é prematuro prever que ocasionará o fim da globalização. O que se seguiu ao 11 de setembro não foi uma inversão total da marcha da globalização, mas uma perda de impulso: simplesmente ficou muito mais difícil seguir adiante. Uma clara indicação disso é o fato de que o governo de George W. Bush nunca fala da globalização. A razão é evidente: o governo de Bush está concentrado sobretudo em assuntos nacionais e essa tendência não é compatível com a globalização.
A segunda área na qual sentimos uma inibição da globalização se refere à segurança, que atualmente se converte na preocupação principal dos países. Os temores causados pelo terrorismo internacional e a proliferação de armas de destruição em massa levaram a um forte entrincheiramento do Estado contra o mercado e contra a sociedade civil. Atualmente, é o Estado que é importante. Isto começou com os EUA e é mais vivamente evidente no fato de que os norte-americanos já não estão dando muita atenção ao déficit do orçamento.
Estamos vendo nos EUA, até certo ponto, o surgimento de uma nova economia de guerra, como a da época do Vietnã. A vertiginosa inflação gerada pela guerra do Vietnã e a disparada do déficit federal, além de outros fatores, tornaram impossível para os Estados Unidos permanecerem no sistema de Bretton Woods. A inflação continuou aumentando mesmo depois da guerra do Vietnã, finalizada em 1975/76, e chegou a dois dígitos no final dos anos 70 e início dos 80, uma situação que foi posteriormente agravada pelos dois choques do petróleo.
Esta combinação de uma economia de guerra com uma considerável pressão no setor do petróleo - que também vemos atualmente - acabou levando Paul Volcker, que era presidente do banco central norte-americano, a aumentar as taxas de juros, o que, por sua vez, acentuou a crise da dívida externa. Embora não se possa argumentar que o mesmo ocorrerá agora, em grande parte porque, ao contrário do acontecido nos anos 70, não temos mais uma inflação alta, de todo modo há elementos que são similares de modo preocupante. Assim, é necessário vigiar os acontecimentos.
O autor, Rubens Ricupero, é secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento