Bairros

Embusca da cidadania pela leitura

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 4 min

Cerca de 30% dos aproximadamente 17 mil analfabetos de Bauru estão buscando cidadania e melhores condições de vida no aprendizado da leitura e da escrita. São 5.139 jovens e adultos que estão matriculados em cursos de alfabetização da rede pública espalhados pelos bairros da cidade.

Para quem não sabe ler, a meta vai muito além de desvendar a palavra que se esconde por trás do conjunto de letras. É ganhar auto-estima, perder a vergonha, conquistar confiança e sentir-se igual ao vizinho, amigo ou colega de trabalho. Ou seja, torna-se cidadão.

A alfabetização também realiza sonhos - o sonho de ler a Bíblia e o jornal, de pegar um ônibus sozinho, de fazer compras no mercado sem precisar de ajuda, de auxiliar o filho com a tarefa escolar, entre muitos outros.

Esses são apenas alguns dos fatores que motivam analfabetos - ou analfabetos técnicos, que um dia freqüentaram a escola, mas que têm muita dificuldade de ler e escrever - a procurar cursos.

“Eu não consigo ir ao mercado fazer compra sozinha porque eu não sei o preço das coisas. Tenho de levar meu marido junto. Ao banco também. Eu não sei fazer nada sozinha. Nem pegar ônibus”, lamenta Lourdes Custódio Florinda da Silva, 46 anos.

Ela está freqüentando um curso de alfabetização no Ferradura Mirim há cerca de uma semana e pretende mudar de vida depois de aprender a ler e a escrever. Quer deixar de lado a vida de catadora de papel e encontrar um emprego melhor.

Quem já passou pela experiência de ser alfabetizado durante a fase adulta, revela a descoberta de um novo mundo. É o caso de Aparecido Cesário da Silva, 32 anos. Ele retomou os estudos em 2002.

“Eu não sabia tomar um ônibus. Agora eu sei. Eu não sabia ir à cidade sozinho. Agora eu sei. Mudou muita coisa na minha vida. Eu me sinto melhor hoje”, confessa.

Os professores de cursos de alfabetização para adultos acompanham com entusiasmo cada fase do aprendizado e afirmam que geralmente alunos mais velhos têm mais interesse pelas aulas.

“Não é um ensino obrigatório, como o infantil. Eles vão às aulas porque eles querem e têm vontade. Eles sentam às 9h e não querem fazer intervalo para nada até às 13h. Eles não faltam quando chove e ficam chateados quando a escola não funciona aos feriados”, conta a professora Ediana Marcelino Osserne, do Programa de Alfabetização e Inclusão (PAI), promovido pela Universidade do Sagrado Coração (USC) em parceria com o governo estadual.

Para ensinar adultos, é necessário utilizar técnicas específicas, que são diferentes das aplicadas em salas infantis, de acordo com Danielle Pereira, professora da Escola do Serviço Social da Indústria (Sesi).

“Trabalhamos os assuntos com bastante contextualização. O adulto já vem com uma certa vivência e nós, enquanto educadoras, estamos aproveitando toda essa vivência que os alunos trazem”, explica a professora, que utiliza exemplos em sala de aula como preenchimento de cheques e receitas culinárias.

Para a diretora do Departamento de Ensino Especial da Secretaria Municipal de Educação, Aparecida Idalina Rover, é importante que cada analfabeto perca o medo e tome a iniciativa de procurar uma escola.

“Eu gostaria muito que os alunos não tivessem vergonha de procurar uma escola. Eles acham que não conseguem mais aprender depois de velhos. Mas a educação mudou e está preparada para recebêlos. Temos escolas e professores capacitados”, afirma.

Ela frisa que eventuais cursos promovidos por iniciativas comunitárias sem parcerias com órgãos públicos ou instituições de ensino podem alfabetizar uma pessoa, mas não oferecem histórico escolar para que o aluno tenha a oportunidade de continuar estudando.

Para o professor aposentado Rodolpho Pereira Lima, que foi secretário municipal de Educação em 1983, a situação de Bauru em relação ao analfabetismo reflete falta de interesse político.

“Falta cidadania a um analfabeto. E eu considero que não é negligência. É falta de interesse do governo numa política. Quando se quer, faz. Educação é investimento, não é gasto. O lucro gerado da educação vai para o progresso do País”, avalia.

Na opinião de Lima, o problema do analfabetismo só será solucionado a longo prazo. “Nós temos crianças analfabetas quando deveriam estar alfabetizadas. Se não tivermos política e interesse de colocar todas as crianças na escola, não vai melhorar e sempre teremos adultos analfabetos.Éincoerência e total incompetência”, salienta o professor.

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