Bairros

Professores afirmam que adulto é mais interessado

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 4 min

De acordo com professores, os adultos são alunos mais interessados no conteúdo das aulas do que crianças em idade escolar. As diferenças não param por aí. Ensinar para pessoas mais velhas também exige técnicas diferentes.

“Não é umensino obrigatório, como o infantil. Eles vão às aulas porque eles querem e têm vontade. Eles sentam às 9h e não querem fazer intervalo para nada até as 13h. Eles não faltam quando chove e ficam chateados quando a escola não funciona aos feriados”, conta a professora Ediana Marcelino Osserne.

Ela é professora no Programa de Alfabetização e Inclusão (PAI), promovido pela Universidade do Sagrado Coração (USC) em três bairros de Bauru – Parque Jaraguá, Núcleo Geisel e Parque Vista Alegre -, em parceria com o governo estadual.

Ediana explica que para alfabetizar adultos é necessário utilizar em sala de aula exemplos que façam parte do cotidiano do aluno. Com crianças, por outro lado, os professores trabalham mais o lado lúdico.

Danielle Pereira, professora do curso de alfabetização da Escola do Serviço Social da Indústria (Sesi), utiliza em sala de aula exemplos como preenchimento de cheques e receitas culinárias.

“Trabalhamos os assuntos com bastante contextualização. O adulto já vem com

uma certa vivência e nós, enquanto educadoras, estamos aproveitando toda essa vivência que os alunos trazem”, argumenta.

Tão entusiasmados quanto os alunos, os professores acompanham as descobertas.

“Eles ficam muito contentes com cada passo. Nosso objetivo é resgatar a cidadania do aluno de forma completa”, diz Danielle. Professora de curso ministrado no Ferradura Mirim, Gisele Cristina Lambertini da Silva afirma que seus alunos só deixam de freqüentar as aulas por incompatibilidade de horário com o trabalho ou problemas do gênero.

“Os adultos que não tiveram oportunidade de estudar vêm com muita vontade para a aula. Para a criança, o estudo faz parte do cotidiano e não é tão valorizado”, observa.

Muitos dos alunos do Ferradura Mirim são migrantes e não têm parentes por perto. Ler e escrever cartas para a família é um sonho.

“Eles querem aprender porque eles vivem num mundo letrado e estão fora disso. Eles têm dificuldade para tomar um ônibus, por exemplo. Eu tenho um aluno que já ficou num ponto durante horas porque não sabia como retornar”, diz.

Atradução disso tudo, na opinião de Gisele, é a busca poruma vida melhor. “Eles ficam muito felizes quando conseguem fazer uma lista de supermercado, por exemplo. É uma felicidade para eles e para a gente também”, destaca a professora.

As aulas no Ferradura Mirim são ministradas diariamente no período da tarde. A sala é do primeiro ciclo do ensino fundamental (1.ª a 4.ª série). Freqüentam a mesma classe alunos com 13 anos ou mais. Entre eles, há aqueles que têm algum conhecimento de escrita e outros que nunca freqüentaram a escola e não sabem ler nem escrever.

____________________

Idosos

Analfabetismo de adultos e idosos sensibiliza pessoas que não necessariamente atuam na área da educação. Integrantes da Universidade Aberta à Terceira Idade, da Universidade do Sagrado Coração (USC), decidiram passar por curso de capacitação para ensinar idosos da Vila Vicentina a ler e escrever.

O projeto, de autoria do engenheiro Sérgio Eberle, um dos integrantes do grupo de terceira idade, foi denominado "A vida é bela". "A idéia é ajudar a pessoa da terceira idade a ler alguma coisa. O pessoal precisa de alguma atividade e muitos não sabem ler", expõe Eberle.

Para concretizar a idéia, integrantes do grupo de terceira idade passarão por treinamento com docentes do curso de pedagogia da USC e professoras de cursos de alfabetização de adultos. José Walter Ribeiro é um deles.

"Eu sinto uma pena muito grande das pessoas analfabetas e sempre procurei ensinar algumas pessoas.Me faltava oportunidade. E essa oportunidade surgiu agora", diz.

Ribeiro ministra aulas de reforço das disciplinas de história, geografia, matemática e português para crianças. "Eu creio que será importante para os idosos (da Vila Vicentina) receber esse tipo de curso. Dá pena de ver a reação dessa gente. Eles parecem ter vergonha de não ter tido a chance de estudar. Eles se sentem inferiorizados. Totalmente inferiorizados. E eu acho gratificante poder tirar as pessoas dessa 'cegueira'", enfatiza.

Através do treinamento, os professores voluntários da terceira idade devem conhecer quais são os procedimentos didáticos para atender à demanda de idosos analfabetos.

"Temos de saber se uma aula de leitura diariamente é interessante. Ou se é melhor um dia de leitura e outro de outra atividade qualquer. Isso ainda não sabemos. Já sabemos que eles querem aprender, mas precisamos descobrir melhor o interesse deles pelo assunto", explica Eberle.

De acordo com o engenheiro, a idéia inicial do projeto era alfabetizar idosos de bairros periféricos de Bauru. Entretanto, surgiu um pedido da Vila Vicentina e o grupo da Universidade Aberta à Terceira Idade notou que a demanda justificava a mudança de foco do curso.

“Eles estão carentíssimos e estão loucos para começar aprender. Eles são ávidos por ler. Muito mais que crianças. Aprender a ler é conquisar a cidadania. Enós, que vamos ajudar aqueles que precisam e desejam ler alguma coisa, também estaremos fazendo um trabalho de cidadania. A alfabetização é apenas o 'start' do que pretendemos trabalhar com os idosos", revela.

Comentários

Comentários