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Entrevista da semana: 'Campanha foi superficial e amadora'

Diego Molina
| Tempo de leitura: 11 min

Durante cerca de um mês e meio, os aparelhos de rádio e TV dos eleitores de Bauru receberam – ou foram invadidos pelos – candidatos a prefeito e vereadores, que expuseram suas idéias e se utilizaram dos recursos disponíveis para atrair a atenção e o voto dos cidadãos. No entanto, na opinião do historiador político Maximiliano Martin Vicente, o que se viu foram campanhas mal articuladas, superficiais e produzidas de forma amadora.

Ele observa que os candidatos optaram pelo caminho mais fácil nas campanhas, tocando em pontos comuns como educação, saúde e infra-estrutura da cidade e`, assim, deixaram de abordar temas de real importância para a retomada do crescimento de Bauru, como a questão da dívida pública do Município. Nesta entrevista, Vicente, que é professor do departamento de Ciências Humanas da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), analisa também a ideologia dos partidos, a redução no número de vereadores na Câmara Municipal e aponta falhas das campanhas de alguns candidatos.

Jornal da Cidade – Como o senhor analisa as campanhas políticas nessa eleição?

Maximiliano Martin Vicente - Houve alguns sinais claros, por parte dos candidatos, de que é preciso haver um amadurecimento no sentido de realizar propostas, e não se restringir a criticar o contrário. Até agora, o que se tinha muito claro era que você tinha que desmoralizar o outro para, de alguma forma, fazer vigorar o seu programa. Desta vez, não. Em parte, porque houve uma lição muito forte no ano 2000, e também houve um comprometimento ético por parte dos candidatos de não ficar nos ataques pessoais, e me parece que isso foi cumprido. Agora, em termos de propostas, eu não vi novidade nenhuma, muito pelo contrário. Considero a campanha extremamente superficial e amadora, no sentido de que se utilizaram recursos que não apresentam soluções concretas para os problemas graves de Bauru, que não foram tocados. Aliás, foram tocados mas não debatidos em profundidade. Não vejo grandes novidades. Foi uma continuação do que sempre se vê: programas, shows, comício, tapinha nas costas, crianças no colo, mas e daí? Como vamos ficar nesses quatro anos que temos pela frente?

JC - Por que os candidatos não quiseram tocar nesses pontos mais polêmicos?

Vicente - Eu pergunto: qual a situação de Bauru no cenário estadual e federal? Nós temos um deputado estadual, ótimo, mas no âmbito da federação, estamos isolados. Em termos práticos, significa que a cidade não vai ter uma fonte de recursos extra, a não ser sua arrecadação. Se você quer saldar a dívida, tem de tomar medidas duras, mas quem se compromete honestamente a tomá-las num período eleitoral? Ninguém. Qualquer tentativa de por a casa em ordem implica em gastar pouco e saldar alguns compromissos que podem estruturar a cidade daqui a oito, 12 ou 14 anos. Não se pode trabalhar apenas a curto prazo, porque assim qualquer medida dói na população, pois significa aumento de taxas e impostos, cortes em algumas áreas e isso, evidentemente, nenhum candidato se arrisca a falar.

JC – A campanha também foi marcada pela falta de ataques mais pesados entre os candidatos, a não ser nos últimos dias. Houve uma banalização dos ataques pessoais?

Vicente – Sim, eu creio que é por aí mesmo. Está muito claro que, nas campanhas anteriores, você tinha de mostrar personalidade e que era o melhor, e uma das formas de fazer isso é dizer que o outro é corrupto ou que tem uma ficha suspeita. Creio que a atual situação do município fez com que os candidatos apontassem como possíveis propostas o que a população está desejando, a luz no final do túnel. Todos os candidatos seguiram o mesmo esquema, os mesmos temas que fazem parte do cotidiano da população.

No entanto, o que tivemos, e que não foi visível, foi a guerra de alianças que há por trás de todos os candidatos. Reforço o termo “guerra” mesmo, e isso levanta suspeitas. A população foi iludida porque em momento algum se tratou disso. Ninguém disse “Se eu ganhar, os meus amigos são estes”. Então, se o governador do Estado vai ajudar daqui para frente, porque não ajudou até agora? Ou se o candidato tinha boas intenções, porque perdeu a última eleição? Se teremos sintonia com o governo federal, porque até agora não havia?

Com esses temas, a população foi anestesiada, mas não teve contato com os problemas de verdade. O que resta para os cidadãos é despertar o espírito de cobrança. É sagrado: se você não cobra na política, você dá um cheque em branco para o candidato. Isso não se faz! Me sinto numa posição difícil para escolher o meu candidato, até porque esses pontos não ficaram claros, salvo naqueles partidos que, por questão ideológica, vêm mostrando quem são. É o caso do PCO e do PSTU, que fizeram campanhas simples, mas que defendem sua ideologia. Isso não significa que você tenha de concordar com eles, mas é uma coisa mais honesta do que os partidos que estão mais consolidados. É absurda a aliança que está liderando as pesquisas (coligação Juntos por Bauru), que não teria sentido no âmbito federal. Não tem sustentação, assim como outras alianças formadas também não têm.

JC – Falando sobre a questão ideológica, os dois partidos que o senhor citou têm, ou pelo menos mostraram durante a campanha, posições mais estabelecidas. Para os eleitores, fica claro que não há uma exposição da ideologia ou os próprios partidos nem têm mais uma idéia para defender?

Vicente - Os partidos não tem. Nunca vou me cansar em dizer que a primeira reforma pela qual o País deveria ter passado é a reforma política. Se você faz essa reforma, dita normas claras para um jogo no qual eu vou saber em quem estou votando e porque. Mas como compartilhar uma ideologia do PC do B, que está do lado do governo, com o PDT, que sempre atacou o Lula, e com o PMDB, que uma hora está e na outra, não. No entanto, isso é legal, mas a lei é falha porque enquanto você não estabelecer normas claras para o funcionamento político, a chamada reforma política, absurdos continuarão acontecendo, e não só em Bauru.

JC – Essa é a primeira vez que temos a possibilidade de eleição municipal com dois turnos. Isso significa uma evolução para a política da cidade?

Vicente – Pessoalmente, sou um defensor dos dois turnos, independente do resultado. Do jeito como a situação está, não vejo com bons olhos que um candidato leve logo no primeiro turno. O segundo turno significa apurar as propostas, de tal forma que tudo que falei que não vem acontecendo será explicitado pelas pessoas. Os candidatos fazem mais alianças, polarizam mais o jogo e ficam mais expostos. Não sei se Bauru terá segundo turno. As pesquisas apontam que não, então é interessante porque poderíamos ter. Com apenas dois candidatos expressando suas alianças, coligações e propostas, fica mais claro para saber quem é quem nesse processo.

JC – Outra mudança que teremos a partir do próximo ano é a redução no número de vereadores, de 21 para 15. Isso é positivo ou negativo, na sua avaliação?

Vicente – O critério (para a redução) foi matemático e não de qualidade. Se isso é bom ou ruim, eu digo que depende. Às vezes, com dois vereadores você soluciona um problema e com 40, não. A questão é ver se o candidato tem noção do que significa ser vereador e qual a função da Câmara Municipal. Se ficamos apenas na representação numérica, sem resgatar a verdadeira função da Câmara, podemos correr um risco grande de expor os vereadores à supremacia do Executivo, tanto do Município como do Estado. É mais fácil pressionar poucos do que muitos, e isso é perigoso. O vereador tem de ter claro que sua função é fiscalizar e defender os interesses da população. Ele precisa ficar atento aos atos do Executivo, ter acesso a esses dados e responder aos interessas da população.

JC – As campanhas dessa eleição tiveram menos recursos, com menos comícios e shows promovidos pelos candidatos, que apostaram suas fichas nos programas de rádio e TV. Essa é a realidade das campanhas daqui para frente? É reflexo da política e da crise econômica?

Vicente – O que está muito claro é que depois da eleição do Collor, ficou visível o papel da TV com o horário gratuito. Você atinge muito mais pessoas do que um comício ou o corpo-a-corpo. O que aconteceu é que houve uma mudança significativa na propaganda política. É necessário uma dose alta de profissionalismo e isso é muito caro. São pessoas altamente especializadas em comunicação, marketing, relações públicas e uma série de profissões que estão se voltando seriamente para esse setor, afinal, temos eleições a cada dois anos em nosso País.

Creio que, para uma campanha de uma cidade do tamanho de Bauru, ninguém tem condições de pagar um profissional que permita eleger um candidato. Porque um bom profissional elege um candidato! Mas isso exige bons profissionais, bons técnicos, informação, boa imagem do candidato e pesquisas às vezes diárias. Bauru não é uma cidade que pode esbanjar dinheiro e nem teve um apoio significativo de grandes partidos. Diria que o que tivemos foi o que deu para fazer.

JC – Quais falhas você aponta nas campanhas dos candidatos a prefeito de Bauru?

Vicente - Em alguns momentos, senti um amadorismo primário, isso ficou muito visível principalmente em alguns candidatos que pregavam uma série de coisas que nos chamamos, na gíria política, de “dialético”. Não no sentido de contraditório, mas de negação. Para cada coisa que o candidato falava, havia pelo menos dois eleitores que já eram contra. Isso não se faz! Você não pode centralizar o discurso em ponto, tem de abrir.

A eleição é profissional, não é mais aquela coisa de ir ao bairro para jogar bola e jogar truco com os eleitores. Isso não funciona mais. É claro que tem que ser feito, mas a parte de mídia é muito mais séria e profissional. Fiz alguns cálculos. Para uma campanha bem-feita de propaganda de televisão, não se gastaria menos de R$ 40 milhões. Você pode fazer por menos, mas o resultado é mais fraco, e isso ficou nítido em alguns candidatos.

O caso da campanha de mídia do Caio foi um em que faltou profissionalismo. Não em termos de qualidade, mas o direcionamento foi totalmente errado. O potencial do candidato em momento algum foi explorado. Você não entra titubeando e escondendo o candidato, justamente o contrário! Você tem de expor o candidato. Do outro lado, a campanha do Tuga (Angerami) foi um pouco mais séria e ele conseguiu muito bem aliar seu passado à atualidade. Você percebe que a campanha teve um bom planejamento, as falas, o discurso foi muito bem articulado, enquanto no programa do Caio você o via por 15 segundos. Parece uma coisa anônima.

A campanha da Estela (Almagro) lembra muito a do Lula, que apelou para o sentimento, para a esperança. A Estela foi para o sentimento do amor pela cidade, “Se a cidade está abandonada, ela precisa de carinho”. Isso não funciona no caso de Bauru. No âmbito do País, funcionaria melhor, com grandes temas, mas não aqui. Ela pecou muito por isso. O slogan “Amor por Bauru” supostamente foi para tirar a imagem do PT radical, e o fato de a Estela ser mulher e ser mãe chama muito a atenção. Mas por outro lado, você precisa de um profissional competente. Onde está? Que cargo ela ocupou? Isso não foi falado.

E no caso do (Luiz Carlos) Valle, eu até pensava numa possível surpresa, justamente pela população evangélica. Mas ele canalizou a campanha muito mal do ponto dialético. Para cada vez que ele aparecia, muitos eleitores se afastavam. Um princípio mais geral, como o humanismo na política, teria chamado mais atenção do que explicitar (a posição do candidato como pastor evangélico). Antes ele dizia que se identificava (com o público evangélico) e depois passou a ser explícito, “eu sou pastor e quero seu voto”.

JC – E o Coronel Marsola, apoiado pela atual administração, mas que praticamente escondeu esse fato durante a campanha? Foi justamente para não ligar o candidato à atual situação da cidade?

Vicente – Exato. Os quatro anos do Nilson Costa, bem ou mal, criaram uma situação incômoda para a população. Não vou entrar no mérito de julgar se foi pior ou melhor, mas o sentimento da população é esse. E como é que você vai somar isso a uma campanha? Então você oculta. Porém, isso necessitaria de um candidato muito forte. Quem era o Coronel Marsola? Alguém que ocupava um cargo de gabinete na Prefeitura e isso jamais elege uma pessoa. Carregar esse fardo da administração atual, mesmo nos governos mais aprovados, sempre é complicado.

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