Cultura

'Está surgindo uma nova dramaturgia', diz Neve

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 4 min

O diretor comenta o desejo dos grupos do Interior em permanecer nas suas cidades e também a qualidade dos seus textos.

Jornal da Cidade - Apesar das políticas serem voltadas para as capitais e para o público que pode pagar ingressos existe um movimento que vem de dentro para fora?

Paulo Neves - Exatamente. Esse movimento vem do Interior, da universidade. Falei com o pessoal que fez a peça que ganhou, o grupo Bagaceira. Perguntei quanto eles cobravam para se apresentar e eles disseram: “R$ 2,00”. Mas lota? “Lota”. Para viver eles fazem rifa, dão workshop, fazem muitas coisas, mas cobram só R$ 2,00 ou R$ 3,00 para o povo ver. Olha o contrabalanço daquilo que se tem do oficial. Eu saí de lá pensando que o Brasil ainda tem jeito, que ainda tem cultura. O que eu vi eu achei muito sério. Eles não têm malícia que nós, paulistas, temos. Um dia eu levantei e disse “mas o Ernani (que era também membro do júri) está trabalhando, como vocês vão julgá-lo?”. Eles disseram: “a gente não vota nele”. Simples assim, eu é que estava pensando coisas. Não tem carta na manga, as coisas são simples. Além disso, eles têm embasamento. Eles discutem Stanislavski no sertão mas não precisam usar porque podem utilizar outra linguagem. Não precisam de Brecht no sertão. O pessoal de Florianópolis apresentou “Castelo de Cartas”. Eles iam participar do Festival Ibero-Americano, em Cartagena, na Colômbia e depois fazer uma pesquisa sobre valores locais de Santa Catarina. Olha que trabalho. O ator do grupo baiano que fez “Deus Danado” já foi convidado pela Globo para fazer tipos, assim como tem o negro, o nordestino. Ele, um ator fantástico, disse: “eu tô bem em Salvador fazendo o meu teatro, minha escola”. Eles estão fazendo teatro para levar para o povo. Eu senti que o processo de consciência desses grupos muito mais aguçado, isso me deixou intrigado. Quando você fala de teatro em São Paulo, diz: “você viu a última do Zé Celso?”. Diz isso como uma forma de start ou de esnobismo. “Você viu a última do Chico?”, perguntam. Então todo mundo paga caro para ver “A Ópera do Malandro”, que tem mais de 20 anos de idade só porque é do Chico, mas não vai ver o grupo Latão, o Tapa, não vão assistir “O Livro de Jó”. Então pra nós, teatro ficou uma coisa glamourizada, de elite. No Rio e em São Paulo é assim.

JC - Isso também pode ser sentido em Bauru. O Municipal só lota se a peça for muito comercial e, de preferência, tiver algum ator da Globo.

Neves - Sem dúvida. São as peças glamourizadas. Quando eu fiz o “Cala Boca já Morreu” tinha 350 pessoas no teatro. Eu percebi que “algumas senhoras” vão ao “espetáculo do Paulo Neves” de tanto ouvir os outros falarem ou porque não tinham nada para fazer e foram para “dar uma colher de chá”. Quando vem um ator de televisão, elas “vão ver o tal ator”. Quando saí de Prudente, saí com um “índice de brasilidade” maior. Olha como o Brasil é bonito, como tem grandes saídas.

JC - Os grupos do Nordeste que estavam no festival não pensam em vir para o Sul?

Neves - Eles dizem “nós ainda vamos aparecer para o Brasil”. Mas primeiro eles querem fazer o próprio Nordeste, depois o Sul. Eles se baseiam nos projetos do Ministério da Educação, da Cultura e confiam que vão chegar, mas querem primeiro fazer teatro para eles. Isso é muito bonito. Eles querem dar cultura para os irmãos, depois para o Sul.

JC - Não há nem uma idéia de lucro financeiro?

Neves - Nada. O grupo de Fortaleza viajou 56 horas de ônibus para participar do festival. São alunos de universidade, chegaram no mesmo dia da apresentação! Para voltar, mais 56 horas. E eles ainda diziam: “é bom, assim vamos conhecendo o Brasil”. São jovens de 22, 23 anos que têm uma humildade impressionante. Ninguém estava botando banca, defendendo teses. Todos os atores e diretores eram muito simples. Pessoas brasileiras.

JC - Os textos também chamaram sua atenção?

Neves - Está surgindo uma nova dramaturgia nacional. Não estão montando mais os autores tradicionais. Se você parar para observar, tem até 1970, uma dramaturgia nacional engajada com o Guarnieri, Nelson Rodrigues Oduvaldo Viana... De 70 em diante começaram a não escrever e a montar textos europeus porque eles entravam mais facilmente. Depois de 80, começaram as comédias como as do Marcos Caruso. Na época do Collor, que destruiu tudo, tinha um ou outro autor. Nesse festival, quem ganhou foi um autor do Ceará de 21 anos. Em segundo ficou um autor que escreve peças há 10 e que são publicadas só no Nordeste. Perguntei se ele não tinha sido montado no Sul e ele disse que não havia interesse pelos seus textos. Será que é porque é regional? Não, “Deus Danado” é a vida, é universal. Fala de miséria no Nordeste, mas a miséria é universal. E essas peças não chegam aqui! Eles estão fugindo do óbvio.

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