Assisti, na noite do último dia 30 de setembro, meio perplexo e meio constatando o óbvio, o debate entre os candidatos a presidente dos EUA, Geoge W. Bush e John Kerry. Parecia mais um debate entre candidatos a imperador do mundo (o que é óbvio já que os EUA, pelo seu colosso militar e tecnológico, são um império). Durante o debate, ambos se concentraram na troca de farpas, embora, na maior parte do tempo, tenham revelado uma identidade de propósitos em relação à dominação planetária (o que me deixou perplexo com a tendência de que nada ou muito pouco mudará na política externa americana nos próximos anos, seja Kerry ou Bush o próximo presidente).
Mudará a forma, mas não mudará o conteúdo, pois os dois sofrem de etnocentrismo. Etnocentrismo é uma visão do mundo que esses candidatos têm, onde os Estados Unidos são tomados como o centro de tudo; e todos os outros países são pensados e sentidos através dos valores americanos, dos modelos americanos e das definições americanas do que é ameaça à paz, não proliferação de armas nucleares e livre comércio. No plano intelectual, pode ser visto como a dificuldade de se aceitar a diferença, a diversidade política e cultural. No plano psicossocial, a manifestação de estranheza, medo e hostilidade em relação aos desiguais.
O etnocentrismo é uma expressão do racismo secundário que contém um discurso explicativo e justificativo da luta do bem contra o mal. É óbvio que o mal são os diferentes, são os outros. Para Bush, esse mal deve ser atacado e morto no ninho, pela via rápida. Para Kerry, esse mal deve ser administrado até ser transformado em bem, isto é, no seguidor do “eu” central. O que mais preocupa em tudo isso é revelado pelo escritor Harold Laski que afirma: Nem Roma, no auge de seu poder, nem a Grã-Bretanha, no período de sua supremacia econômica, tiveram influência tão direta, profunda e ampla como os Estados Unidos tem hoje. Para Everardo Rocha, em seu livro O que é Etnocentrismo, o grupo do “eu” ( leia-se aqui o que representam aqueles dois cidadãos), faz da sua visão a única possível ou, mais discretamente se for o caso, a melhor, a natural, a superior, a certa. O grupo do “outro” (leia-se aqui o resto do mundo, especialmente aqueles não alinhados) fica, nessa lógica, como sendo absurdo, anormal, ininteligível... (ou ameaçador). No limite, se auto-intitulam por nomes que querem dizer “perfeitos”, “excelentes” ou, muito simplesmente, “ser humano” e ao “outro”, ao estrangeiro, chamam, por vezes, de “macacos da terra”, “ovos de piolho” ou terroristas.
De qualquer forma, a sociedade do “eu” é a melhor, a superior. É representada como o espaço da cultura e da civilização por excelência. A sociedade do “outro” é o espaço do primitivo. São os selvagens, os bárbaros. São qualquer coisa, menos humanos, pois, humanos são eles, os EUA. O barbarismo evoca a confusão, a desarticulação, a desordem. O selvagem é o que vem da floresta, da selva que lembra, de alguma maneira, a vida animal. O “outro” é o “aquém” ou o “além”, nunca o “igual” ao “eu”. Essa espécie de etnocentrismo do Bush e do Kerry extrapola o discurso: é uma realidade que mata hoje e continuará matando no Afeganistão, no Iraque, em outros países não “aliados” e, em contrapartida, na Espanha, na Inglaterra e nos próprios EUA.
O autor, Pedro Antonio Domingues, é professor da área de ciências gerenciais, humanas e sociais da Universidade São Francisco