Publicações literárias estão aproveitando o ensejo anual da primavera para consumir espaços com a publicação de sonetos, trovas, crônicas e outros tipos do gênero intelectual. O objetivo não é vender espaços e, sim, ocupar com algo precioso os corações solitários, pois não é apenas cantando maviosamente que se o consegue, mas, também, recitando ou falando coisas que rimam. Algumas dessas revistas e folhetos têm chegado às nossas mãos, delas sequiosas. E uma nos despertou, fazendo-nos ler empenhadamente: “Uma série de dias escuros, uma chuvinha teimosa e um friozinho cortante fizeram reaparecer na cidade as capas, as botas e a preguiça de sair de casa. Mas na quinta manhã aconteceu um verdadeiro milagre: surgiram um céu de azul encantador, um sol sorridente, o verde do após-chuva e as cores enchendo os nossos olhos ainda sonolentos. Ao mesmo tempo, as camélias cor-de-rosa sacudiam a água revigorante e se mostravam, em plena primavera, vaidosas da sua beleza mais pura”.
E aí se tem bonita, realmente bonita, a poética concepção do autor. Estão todos de acordo? Certamente, contendo ela um mundo de ensinamentos, reflexões e testemunhos do quanto se tem de admirar a inspiração que a primavera suscita nos seres humanos, levando-os ao terreno de valores realmente extraordinários, aqueles que fazem esquecer os dias escuros da violência, da injustiça e do desamor, assim como lembrar de valorizar plenamente as riquezas do mundo que Deus construiu com inexcedível carinho, enfeitando-o com repositórios de flores e esperanças.
Se as maledicências que contornam as cabeças de tantas pessoas só conseguem conduzir para pensamentos malignos resta aos bem intencionados o integral usufruto da poesia, que não se inspira somente nas ilações cerebrais e, sim, nos impulsos dos corações amorosamente motivados e, então, exaustivamente propensos a incursões bonitas e, por isso, recitadas inclusive por crianças. É a nossa opinião.
O autor, N. Serra, delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado, é o jornalista responsável do JC. “Não se deixe passar nunca o acesso do amor/ Que se apresenta a cada passo no nosso caminho/ Há tanto coração carente de calor/ A quem se pode dar um pouco de carinho!”