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Observar é pensar?


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O que é observar? Seria o mesmo que pensar, refletir, recordar e raciocinar? O que se deve observar? O que tem a observação a ver com o entendimento? Observar não é apenas olhar, contemplar, mas sim ver e entender o que se vê. É uma capacidade da inteligência que pode ser desenvolvida, educada e utilizada para o bem próprio e coletivo. Se eu olho para os rios e para os prados e absorvo e aprendo a calma da natureza em seu incessante movimento, dei um destino prático à minha observação porque me espelhei no que vi e aprendi a calma e o movimento. Se eu olho para as minhas paisagens interiores, para alguns pensamentos tumultuados e intempestivos que estão em minha mente e, ao examiná-los, exercito-me na imposição de uma ordem e de uma disciplina que harmonizem aquelas paisagens, dei, novamente, um destino positivo para a minha observação que, neste caso, se confunde com a reflexão, com o pensar, com a recordação, com a própria inteligência, este sol interior que cada ser humano tem e que pode brilhar mais e mais libertando-nos da escuridão, pois o maior cego não é o que não quer ou não pode ver, senão o que não quer ou não pode entender.

É difícil julgar as outras pessoas sem antes haver aprendido a exercer o juízo sobre si mesmo. Julga-se, em geral, em função de apreciações alheias, pelo o que se ouviu dizer, e não pelo que realmente se observou. A observação consciente - conforme nos esclarece o pensador González Pecotche em inúmeros escritos e conferências - deveria servir, antes de tudo, para corrigir as nossas imperfeições. Essa falha gritante das culturas que nos precederam - com raras e honrosas exceções para alguns pensadores que podemos contar nos dedos das mãos - engendrou nas mentes humanas a tendência ao escapismo, a viver somente fora de sua realidade interior. O ser humano está sempre a fugir de si mesmo: no trabalho, nas diversões, no estudo, nas leituras ou nas platéias não consegue conectar aquilo que acontece à sua volta com a sua realidade interior.

Romper com esta inércia cultural é o grande desafio desta nova humanidade no despontar do terceiro milênio. Ao voltar-se para si mesmo e educar-se, o homem do futuro, certamente, transformará o horroroso espetáculo de guerras, corrupção e violência no qual nos encontramos num cenário mais condizente com a espécie inteligente que um dia poderemos chegar a ser.

Ao dizer que tudo o que sabia era que nada sabia, Sócrates dá-nos a pauta de uma conduta inicial, caso queiramos realmente aprender e evoluir. Já se disse que os homens são livres, mas não o sabem, quer dizer, nascem livres e vão perdendo aquela liberdade que lhes fazia sentir-se imortais, plenos, verdadeiros super-homens naquele formidável universo infantil. Este seria o tão bem guardado segredo dos tiranos, dos déspotas, o fato de saber que os homens são, em princípio, livres, mas não o sabem. Essa falta de liberdade é como um cárcere mental cujos barrotes são o temor de pensar por própria conta, os preconceitos, a ignorância sobre si mesmo e sobre as leis que regem o universo.

A verdadeira liberdade é a de pensar. E assim como o ser humano, o espírito humano respira pensando com liberdade, que é o mesmo que criar, que é o mesmo que ter um domínio sobre os pensamentos que habitam a própria mente ou que perambulam por aí de mente em mente fazendo os estragos que todos sabemos quais são. Ser livre é usar com liberdade a inteligência, todas as suas faculdades e não somente a memória e a imaginação. Pensar, observar, raciocinar, refletir, combinar e julgar são algumas faculdades da inteligência que não têm sido muito exigidas ou desenvolvidas pelo ser humano que pode, num grito de liberdade, deixar de ser joguete ou escravo de pensamentos alheios que nada têm a ver com a felicidade almejada pelos que sonham com a liberdade.

O autor, Nagib Anderaós Neto, é articulista

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