Depois de um jejum de 44 anos, a comunidade negra de Bauru terá um representante na Câmara Municipal, a partir de 1 de janeiro do ano que vem. É o enfermeiro Benedito da Silva, o Benê enfermeiro. O último negro a ocupar a função no Poder Legislativo foi Nadir de Campos, em 1960.
Benê avalia com naturalidade sua chegada à Câmara. “Não costumo agregar minha atuação apenas a um segmento. Tenho um leque de atuação generalizado”, conta. Ele reconhece que sua participação na comunidade não é efetiva.
“Mas assim que assumir a cadeira na Câmara, vou procurar o pessoal da etnia negra para conversar e me colocar à disposição. Gostaria de poder incentivar a disseminação da cultura negra em Bauru”, adianta.
Benê tem opinião formada sobre a reserva de cotas a negros nas vagas das universidades. Ele é contra por entender que as pessoas devem lutar para conquistar seu espaço.
“A impressão que tenho sobre esse assunto é de que se oferece privilégios. Nós, negros, temos condições de chegar. Tenho formação universitária e conquistei meu espaço. Acho que reservar vagas é discriminatório. Nós não somos coitados”, opina.
O vereador eleito concorda que a sociedade brasileira tem uma dívida “muito grande” com a comunidade por conta do processo de escravidão. “Aliás, essa dívida é impagável. Não há como pagá-la”, afirma. Na avaliação dele, o racismo no Brasil ainda está muito presente no cotidiano do negro. “É mascarado, mas existe”, reforça.
Metade
Segundo o presidente do Conselho Municipal da Comunidade Negra de Bauru, Roque Ferreira, cerca de 48% da população da cidade é negra ou descendente de afros. São cerca de 170 mil pessoas nessa condição étnica.
“A eleição do Benedito é positiva. Ela dará visibilidade à comunidade negra. O conselho atua estabelecendo interlocução com todos os atores sociais, independente da cor da pele. Mas considero importante a eleição de alguém à Câmara que tenha o referencial negro”, comenta.
Ferreira acredita que Benê poderá contribuir no desenvolvimento de políticas que possam criar melhores condições de proteção à comunidade, principalmente no que diz respeito ao racismo.
“Acho que ele pode se colocar à disposição dos negros e não negros que tenham uma visão mais clara de que como se deve tratar essa questão na sociedade. Isso espelha um certo amadurecimento da sociedade”, analisa.
Na avaliação dele, o negro ainda precisa avançar mais na participação política do País. “Na verdade, a população negra, que é o maior extrato dos setores populares, sofre e arca um peso muito grande por conta das políticas públicas adotadas pelos sucessivos governos. Historicamente, a comunidade foi pressionada a não se organizar para disputar as instâncias do poder. É raro termos candidatos a vereador, a deputado, a prefeito”, diz.
Ferreira observa que uma boa parte dos negros que chegou ao poder relega a questão racial a segundo plano. “Os negros, de forma geral, estão avançando no processo de organização, mas à parte das instâncias e na disputa do poder”, finaliza.