“Acabou a Paraolimpíada. Amanhã volto a ser o Clodoaldo de sempre.” (Clodoaldo Francisco da Silva, sete medalhas) Existem aspectos positivos e negativos na Paraolimpíada. Quem vê o Brasil bem colocado pensa: Eis um país onde a pessoa deficiente vive bem. Ledo engano! O que ocorre é que, no Brasil, criou-se uma lei de apoio financeiro, responsável por um melhor preparo do atleta-deficiente.
Isto não quer dizer que a vida da pessoa deficiente tenha melhorado. Outro dia inaugurou-se em nosso País um campo de futebol e o locutor dizia que era uma obra tão moderna que “tinha até um lugar especial para deficientes”. Os que militam no meio sonham com o dia em que a pessoa deficiente não precise de “lugares especiais”, mas que possa freqüentar os locais públicos com conforto, sem ser olhada como extraterrestre pela sociedade. No fundo, o deficiente gostaria de comer pastel na feira, recarregar o celular na Lotérica, discutir a conta no DAE, freqüentar o futebol ou empinar pipa no Vitória Régia de maneira normal, como nós. Todo pai deveria explicar ao filho que é um fato normal haver deficientes na população em geral, de maneira que, com o passar do tempo, isso talvez venha a diminuir a curiosidade constrangedora que as pessoas em geral demonstram diante de uma pessoa deficiente.Quem sabe a coisa melhoraria no futuro.
Ninguém gosta de ser tratado de modo artificial. Em 1982, na administração Gasparini-Tuga, quando da fundação da Associação Bauruense do Deficiente, uma pessoa deficiente nos disse: O deficiente ou é o coitadinho que a família tranca no quarto ou é o super-herói. E o pior é que não sai disso. Durante 15 dias, vimos na TV um show dos super-heróis. A grande maioria de coitadinhos deve tê-lo assistido das profundezas de seu “quarto de despejo social”. Um outro equívoco é que se dá ênfase aos deficientes locomotores nas competições de basquete e atletismo, fato que vem fortalecer a idéia errônea que “deficiente é aquele que anda em cadeira de rodas”, o que não corresponde à verdade, pois excluiria todas as outras formas de deficiência.
Há pessoas que ficam admiradas: "Como eles são peritos em cadeira de rodas!”. Elas se comportam como se estivessesem assistindo a um espetáculo de circo. Ademais, as pessoas deficientes são usadas para pegar o resto das Olimpíadas. “Elas que se dêem felizes por aproveitar o que sobrou”, devem pensar os cartolas do Comitê Olímpico. Deviam aproveitar a TV para um marketing conscientizador do grande público. Mas, nada! “Já fazemos um grande favor em exibi-los”, devem pensar. Talvez em alguma galáxia distante, os deficientes tenham, de vez em quando, a primazia de abrir as olimpíadas. Aqui na Terra não. Eles vão a reboque. Só podem entrar na festa quando ela terminou para apanhar as migalhas.
Essa discriminação chega a invadir as igrejas, Forças Armadas e instituições diversas, que não admitem pessoas com deficiência à frente de suas atividades, salvo raras exceções que dizem haver, mas que desconhecemos. É a apologia do corpo belo. O cérebro não conta. O maior físico da atualidade, o tetraplégico inglês Stephen Hawking, é um exemplo que a inteligência não precisa de anatomia perfeita para se manifestar. O pior é que ele pode ser, apenas, um super-herói inglês, apesar do segundo lugar da Grã-Bretanha na Paraolimpíada. Uma espécie de 007 em cadeira de rodas, talvez o representante máximo dos milhares de “coitadinhos” escondidos nas águas furtadas de Sua Majestade.
Rui Bertoti