Cultura

ARTIGO: A alma urbana

Por Ercília Ferraz de Arruda Pollice | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 2 min

Acontece em Campinas, uma exposição de arte cujo nome é Concretude.

O artista retrata, lindamente, com uma singularidade toda sua, cenas urbanas.

Fiquei pensando, no título desta exposição, e com meus botões, concluí que pela etmologia a palavra “concretude” nos passa a idéia da solidez das coisas concretas.

Daí pensei, deveria ter-se chamado “frágil concretude”.

E você me perguntaria, “por que frágil?”

E eu lhe diria, por que a força das construções, sejam elas arranha-céus, mansões, casas simples, não reside nelas mesmas, mas está diretamente proporcional ao momento das pessoas que as habitam.

Isto me fez lembrar, um artigo que há tempos li numa revista qualquer, onde um cientista orgulhoso estava a declarar, que havia inventado uma tal bomba, que apenas, note bem, apenas, matava as pessoas, mas não deixava cair um reboco sequer das construções.

Daí, me veio à mente, a alma urbana, aquela alma que permeia, com seu corpo velho, ou jovem, bonito ou feio, amarelo ou negro, entre muros e paredes, vagando, trabalhando, ou caminhando pelas ruas das cidade.

Esse ser, naquele momento, está urbano, mas pode ser que no seu âmago seja um ser do campo, dos arredores, dos subúrbios mais calmos, e, que, talvez, sinta-se isolado, e só, diante daquela concretude fria, assustadora, algumas vezes, e protetora em outras.

O homem urbano, embora não pareça, possui uma alma nem sempre tão urbana assim, cujo arquétipo, certamente, o faz ainda sentir saudades de seu Xangrilá, e sonha com sua Passárgada, onde pensa, “Lá sou amigo do rei, lá tenho a mulher que eu quero, na cama que escolherei”.

Todavia, cada dia seu nirvana lhe parece mais distante, e, fugidio, pois o burburinho da cidade, com seus concretos acinzentados elevando-se aos céus, roubam-lhe sonhos mais simples, e seus desejos tornam-se mais e mais abstratos e longínquos de se concretizarem.

A alma urbana deste nosso mundo complexo, sofre com a falta de singularidades. Seus olhos percebem tudo muito igual, tudo igualmente distante e frio, e sente-se fragilizado, pois alma humana a priori encanta-se com coisas simples.

Daí, minha vontade de corrigir o nome da linda exposição do artista, para “Frágil Concretude” que se torna abstrata quando não consegue penetrar nas nossas urbanas e solitárias almas, e, permitir que nossos abstratos anseios tornem-se concretos.

A autora é escritora, poeta e colaboradora do Ju Machado Escritório de Arte.

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