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O que sai das urnas


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O exercício da democracia política atinge o clímax nas campanhas eleitorais. Esta é uma hipótese consagrada pela ciência política, cujo fundamento é o de que, neste momento, o jogo eleitoral propicia aos cidadãos a possibilidade de escolher livremente os representantes, depois de ter acesso à sua livre expressão e de ouvir o compromisso público de defesa da sociedade. Se esse pressuposto fundamental da democracia é questionado até em sistemas democráticos consolidados, em função das máquinas de persuasão que ajustam perfis ao sabor das circunstâncias, desenhando os campos da informação eleitoral com as tintas do marketing, imagine-se o que acontece num país de frágeis instituições partidárias como o Brasil.

O Brasil que sai das urnas é melhor que a ficção cosmetizada pela máquina de enganação das massas. A começar pelo equilíbrio entre os grandes partidos, medido por taxas que oscilam entre 12% e 17% dos votos, distribuídos entre os quatro principais partidos. O PT, mesmo ganhando maior quantidade de votos (mais de 16 milhões), fica longe do ambicionado projeto hegemônico, alcançando apenas 400 prefeituras. Sua máquina de marketing inundou o País de estrelas vermelhas, expressando o mesmo discurso sem considerar culturas locais. Na maior campanha municipal, em São Paulo, errou ao abusar da pedagogia da “fazeção”, pela qual a candidata Marta “faz melhor”, repetindo um surrado slogan de seu criador e usando referências polêmicas como os “CEUs da saúde”, equivalentes aos desacreditados fura-filas dos tempos do Pitta.

O PT do ABC paulista abandonou o azedume. Adoçado por estilos mais humanizados, como o do prefeito de Belo Horizonte (Fernando Pimentel), sintonizado com falas mansas como a do prefeito de Recife (João Paulo) e mesmo com a jovialidade do prefeito de Aracaju (Marcelo Déda) ou a independência de Luizianne (Fortaleza), alastra-se pelo Norte, Nordeste e Centro-Oeste, ganhando sabores menos apimentados (ou arrogantes). E surge o imbróglio. Quem vai restar do embate pelo voto das classes médias de grandes cidades? Chegando ao meio, o PT desloca a social-democracia tucana para o canto direito do centro, invadindo também territórios do multifacetado PMDB, do crescente PTB e do corroído PP, jogados nas pequenas e médias cidades do Interior. E o que dizer do fraturado PFL, com a índole conservadora e um corpo afinado em núcleos mais densos? César Maia, a maior referência, tem cacife para reerguer a bandeira pefelista? Um inevitável processo de canibalização se instalará na luta pela ocupação dos maiores nichos sociais à disposição: o do meio, que abriga as classes médias urbanas e o eleitorado mais racional; o conservador-liberal, à direita; a geografia periférica, que agasalha as classes C, D e E; e os núcleos ideológicos radicais, à esquerda. Às margens desses nichos, giram as siglas de porte médio, como PPS (que poderá absorver o PDT) e o PSB, com bom potencial de crescimento.

Entre as lições deixadas pelo primeiro turno, há um destaque para as desengonçadas alianças feitas com a linha do PT. Os aliados não obtiveram tão bons resultados como seu principal parceiro. Haverá certa retaliação, com conseqüências que apontam para estas conclusões: o ciclo da geléia partidária chega ao fim; Lula terá maiores dificuldades para administrar a teia de relações construída com massa de péssima qualidade, como cargos dados pela metade aos aliados. (Ministros não petistas se queixam por não poder formar as equipes). Isso tudo convergirá para a reforma política (fidelidade partidária, voto em lista fechada, etc.), que deve abrir o debate em 2005. É a alternativa que resta a partidos que não querem se transformar em caudatários do projeto hegemônico do PT.

O autor, Gaudêncio Torquato, é jornalista, professor titular da USP e consultor político

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