Política

Para Luciana Genro, o PT mudou

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 3 min

“O PT morreu enquanto partido de esquerda que representava os interesses dos trabalhadores”. A afirmação é da deputada federal pelo Rio Grande do Sul Luciana Genro, expulsa da legenda no ano passado junto com outros parlamentares por não cumprir fechamento de questão a favor de votações das reformas, dentre as quais a da Previdência. Ela agora centra suas forças na viabilização da legalidade do Partido do Socialismo e Liberdade, o P-SOL.

Ontem, ela fez palestra no câmpus da Universidade Estadual Paulista (Unesp) para debater com professores e estudantes a reforma universitária que o governo federal deverá encaminhar ao Congresso Nacional até o final do ano.

Para a parlamentar, o que está acontecendo com o PT é muito parecido com o que ocorreu com a social democracia européia. “O Partido Trabalhista inglês é um exemplo. A diferença é que fizeram um congresso e votaram a mudança. Deixaram de ser um partido social democrata para ser um partido neoliberal, hoje braço esquerdo do George W. Bush na guerra do Iraque”, analisa.

Na opinião dela, o PT segue o mesmo caminho do Partido Trabalhista britânico. “Não é à toa que eles (os petistas) também estão na política internacional respaldando os interesses dos Estados Unidos. O Lula, ao visitar o Bush, disse que ele é uma boa pessoa, que não havia que discriminá-lo”, observa.

A ex-petista conta que essa situação ficou mais evidente nas eleições municipais. “Basta ver as alianças, a compra de votos, a campanha típica do marketing sem nenhum conteúdo político”, acrescenta.

Luciana afirma que o governo Lula representa os interesses do capital financeiro em detrimento das reivindicações da classe trabalhadora.

“Nós alertamos isso durante a campanha, em 2002. Dizíamos que o resultado das eleições poderia significar uma traição porque o Lula estava assumindo dois compromissos: o da mudança e o do continuísmo. E um dos dois teria que ser traído. Efetivamente foi traído o compromisso da mudança, que foi o símbolo mais forte da campanha do Lula”, aponta.

A deputada acha que a escolha de Henrique Meirelles para a presidência do Banco Central, de Roberto Rodrigues para o Ministério da Agricultura, e de Luiz Henrique Furlan para o Ministério da Indústria e Comércio formou o “triunvirato da burguesia”.

“Construíram um arco de sustentação do governo que vai desde o PCdoB até o PP de Paulo Maluf. O governo Lula, hoje, é um representante fiel dos interesses da burguesia, dos norte-americanos, dos mercados. Toda a política dessa gestão está atrelada a essa opção clara que foi feita pelo PT, mas não com a participação da base, da militância”, diz.

A deputada Luciana Genro é filha do ministro da Educação, Tarso Genro. Portanto, vive na família o conflito de ter o pai no governo Lula, do qual é radicalmente contra.

“Isso não me provoca constrangimento. Na verdade, há muitos anos eu e ele, em relação ao PT, já tínhamos posições diferentes. Mas é isso: cada macaco no seu galho. Faço meu papel como parlamentar, na condição de coordenadora da Frente Parlamentar em Defesa da Universidade Pública e Gratuita, projeto que assumi antes de saber que ele seria ministro da Educação”, comenta.

Sobre a reforma universitária, a deputada vislumbra que o projeto do governo vai imprimir o que ela classifica como privatização branca. “Através das fundações, as universidades públicas acabam se transformando em centros de produção de ensino, pesquisa e tecnologia a serviço da iniciativa privada que financiará o projeto”, avisa.

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