Cultura

CD capta tônica da turnê de 'A Letra A'

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

O show que Nando Reis realiza hoje na Cervejaria dos Monges faz parte da recém-iniciada turnê do CD “Ao Vivo MTV”, lançado em setembro pela Universal. Em entrevista por telefone concedida esta semana ao JC, o músico falou sobre o trabalho e sua carreira. A seguir, os principais trechos.

Jornal da Cidade - Você ficou um ano em turnê com “A Letra A”. Comercialmente, como foi o desempenho do disco?

Nando Reis - Acho que a função do “A Letra A” e o seu êxito foi muito mais outro aspecto que o comercial. Eu tinha total noção que depois da minha saída dos Titãs eu estava começando uma nova (a primeira) etapa de uma carreira e que haveriam passos a serem cumpridos. A maneira como eu fiz o disco e a função que o disco teve foi totalmente acertada, porque era um disco essencialmente autoral, com uma característica estilística forte. Duas músicas tocaram nos rádios mas não foram hits nacionais. Eu acho que o grande mérito do disco foi fazer as pessoas saírem do show surpresas. Senti isso em praticamente todos os shows. As pessoas saíam surpresas com a sonoridade, acho que tinham uma idéia meio vaga de quem eu realmente sou, que músicas eram minhas, se eu era rock ou MPB. Então nesse sentido “A Letra A” foi um êxito. O meu objetivo era a solidificação, o melhor foco em torno do que é a minha marca como artista. Nesse sentido a turnê foi bem sucedida, mas eu não toquei em muitos lugares onde imaginei que podia tocar. Daí a idéia do “MTV Ao Vivo”, de fazer um show sobre a turnê de “A Letra A” vem quase que como uma continuidade, uma revitalizada nessa, que eu ainda acho que é uma segunda etapa desse ciclo, onde eu vou poder alcançar outras cidades, outras capitais onde eu não toquei.

JC - Como surgiu o disco. Foi um convite da MTV?

Nando - Foi uma somatória de interesses, houve uma convergência. O projeto surgiu de um convite da MTV. Essa série “Ao Vivo MTV” tem o conceito, a tônica, de gravar um show que está na estrada. Não é aquela coisa do “Acústico”, que os artistas fazem especialmente. O “Ao Vivo” capta. O show é uma parte dos shows do “A Letra A”, que era maior, mais abrangente e foi sofrendo alterações, tendo aquisições. Então o disco é o resultado da trajetória dos shows acrescido de quatro músicas inéditas - três que eu fiz especialmente para o projeto, tendo a noção que o disco tem uma vida autônoma, que faz sentido dentro da minha carreira. O Max, diretor artístico da Universal, foi um defensor do disco porque ele acha que a minha performance ao vivo é diferente do estúdio na forma de cantar... Eu também tinha muita vontade de fazer um DVD, então todas as coisas deram certo. Teve outro fato que me motivou. O João Viana, o baterista que fez a turnê do “A Letra A”, iria se desligar da banda para tocar com o Djavan. Ele não gravou o disco mas fez todos os shows. Então um dos meus motivos também era registrar o show como foi na turnê, com ele.

JC - Você gostou do resultado do disco?

Nando - Gostei. Em geral não gosto muito dos disco ao vivo como ouvinte. Eu nunca tinha feito um na minha carreira solo, embora o “Infernal” tivesse essa característica. Mas vejo o “ao vivo” aquele que é gravado com a presença da platéia. Todos os meus discos eu gravei com todo mundo tocando junto no estúdio.

JC - Você sente que hoje a sua imagem não está mais vinculada aos Titãs?

Nando - Meu caso é particular porque eu não saí do grupo para começar uma carreira, já tinha um trabalho paralelo. Esse vínculo já não existe mais. Isso fica muito nítido não só nos shows, mas na maneira como eu sou requisitado para as coisas ou reconhecido nas ruas. É claro que eu pra sempre serei para muita gente, ou pra todo mundo, um ex-Titãs, faz parte da minha formação e é um orgulho poder ter essa associação. Mas não é só isso, agora é o Nando. Já fazem dois anos que eu saí e isso está muito claro.

JC - Você continua requisitado como compositor? Parece que sempre tem alguém cantando uma música sua.

Nando - Sempre tem, eu gosto de trabalhar com outras pessoas. Felizmente tem muita gente que gosta das minhas músicas e acaba gravando. Tenho também os meus parceiros, o Samuel do Skank é um deles. Esse ano teve a gravação de “Dois Rios” com ele e “Do Seu Lado”, com o Jota Quest.

JC - Nos últimos CDs você tem gravado músicas suas que outros artistas cantaram primeiro. Agora, por exemplo, incluiu “Do Seu Lado” no disco. Existe, já que você é o compositor, um desejo de mostrar como é que se deve cantar a música?

Nando - Não... Mas eu acho que acaba tendo uma coisa diferente porque a minha maneira de cantar é peculiar, o meu timbre de voz, o jeito que toco violão, a sonoridade da banda. Tudo isso acaba trazendo uma marca forte. Mas não é nesse sentido de fazer uma comparação como se fosse um corretivo. Nesse caso específico do “Do Seu Lado” muito menos, porque eu gostei do arranjo deles. Até o lá-lá-lá do começo não tinha, eles que inventaram e ficou legal, é como o refrão da música. Além disso, é uma música muito gostosa. Eu adoro cantar e a banda também.

JC - Mudando de assunto, o Tom Capone vai fazer falta?

Nando - Muita, eu tinha muita amizade com ele. Profissionalmente fica uma lacuna. Era um produtor com características únicas. Produtor já é uma profissão escassa aqui. Na verdade temos muitos produtores mas o problema é que existem muitas bandas. O ofício do produtor é muito amplo e requer uma série de características. O Tom era um produtor ímpar, pela maneira como ele gostava de música. Ele produziu dois discos meus. Era um puta amigo, uma pessoa adorável, doce. Foi terrível.

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