Auto Mercado

Eles gostam de ser diferentes

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 5 min

Eles fazem parte de um grupo de consumidores que vai na contramão do mercado de carros nacional e mundial. Em tempos de sobriedade de tons, com predomínio absoluto do prata, branco e preto, há quem se arrisque comprando -ou até ganhando - veículos de cores “exóticas” e diferentes das convencionais, mesmo com vendedores de concessionárias e garagistas afirmando que isso pode ser um grande empecilho na hora de uma futura revenda.

É o caso do motorista bauruense Antonio Aparecido Valeze, dono de um Celta amarelo que ele “prepara” para ser da filha, Nathália Daniel Valeze, 17 anos, que ainda não pode dirigir. Ele garante que adora carros de cores diferentes e já teve outros “normais”, mas que não lhe despertaram nenhuma “emoção”. “Eles não me chamavam a atenção”, afirma.

Por isso, agora ele dedica todo o carinho ao veículo, que já ganhou “cara” mais esportiva com os spoilers, o aerofólio e o insulfilme. “Quero deixá-lo mais bonito”, conta Valeze, que já foi alvo das mais variadas “gracinhas” na rua quando sai com o carro. “Já o chamaram de Skol e até falaram que eu podia fazer um bico para entregar Sedex nos Correios”, recorda ele, rindo.

Apesar disso, Valeze jura não ligar para as “zoações”. “Para mim, quem faz isso tem, na verdade, é dor de cotovelo, pois aposto que queriam ter um igual. E nem penso em vendê-lo, pois agora é que estou curtindo-o para valer”, salienta o motorista.

Outro que não passa despercebido por onde roda é o Kadett laranja dos bauruenses Genésio Gonçalves e Marcelo Luiz da Silva Gonçalves, respectivamente, pai e filho. O automóvel já é famoso na cidade, principalmente por ter “caído” nas mãos de Genésio e Marcelo através de um bingo realizado pelo Esporte Clube Noroeste em fevereiro de 1991. “Nem bati o número certo. Ganhei com um número abaixo, pois a premiação já previa isso”, recorda Genésio.

Para ele, mais do que um belo presente de aposentadoria, o carro tornou-se uma paixão. “Já cheguei até a pensar em me desfazer dele, mas um bem que a gente ganha significa que a sorte ajudou a transformar sua vida. Além disso, a gente acostuma tanto com o veículo que acaba transformando em um membro da família”, considera.

Mas quem utiliza mesmo o Kadett é Marcelo, que também fez questão de equipá-lo com insulfilme, pneus mais largos e lanternas fumê para deixá-lo com “jeitão” esportivo para combinar com a cor.

Apelidos, conta Marcelo, o veículo já ganhou vários. Os mais comuns são “abobrão”, “carro da Cinderela” e “zarcão” (este em referência a um óxido ou tijolo de cor laranja). Ele também já se acostumou a ser o centro das atenções nas ruas. “Quem o vê, ou torce o pescoço ou mexe. Não tem jeito”, afirma.

Por conta disso, Marcelo, a família e o Kadett já foram protagonistas de várias situações engraçadas. Uma delas ocorreu quando estavam em Curitiba (PR), cidade em que as frotas de táxis adotam a cor laranja como uma das padrões. “Estávamos andando por lá quando um cara deu sinal com a mão para a gente parar pensando que fossemos um táxi. Foi uma gargalhada geral”, relembra Genésio.

Outro “mico” causado pelo “abobrão” atingiu Marcelo quando ele estava em um bar bauruense e emprestou o carro para um amigo dar um “rolê”. A confusão começou a se armar no momento em que o veículo passou pela avenida Duque de Caxias e foi avistado por outro colega de Marcelo. “Ele ligou para mim e perguntou onde eu estava. Respondi que estava no bar e ele, desesperado, falou que tinham roubado o carro. Mas expliquei a situação e demos muita risada depois”, diz Marcelo.

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Referência

Ter um veículo de cor diferente também tem seus privilégios. Que o diga o casal bauruense Keila Soares e José Augusto Rios, donos de um Corsa amarelo que tornou-se a principal referência para Keila quando seu marido perdeu-se dela em plena viagem de lua-de-mel, realizada em Joinville (SC), no ano passado.

“Ele me deixou em uma loja e depois não sabia voltar. Pelo celular, uma vendedora foi explicando para ele como chegar e, depois que o vi passando reto por uma avenida, sabia que era quase impossível existir um outro Corsa amarelo por ali naquela hora. Foi então que falei para ele que tinha errado de novo o caminho, mas estava próximo. Daí não teve erro”, recorda Keila.

A vantagem de ser referência também é corroborada por Marcelo Luiz da Silva Gonçalves, um dos donos do Kadett laranja. “Por isso, quando alguém anda com ele a não ser eu e meu pai, já vou logo avisando. Se alguém buzinar, responde com uma buzinada ou aceno porque certamente é algum conhecido nosso”, diz.

E, por ser um carro que chama muito a atenção, o medo de roubo poderia atemorizar Marcelo. Poderia, pois ele confia na falta de “neutralidade” do “abobrão”. “Quem vai querer roubá-lo. Com essa cor, vai ser difícil de escondê-lo e, se bobear, é capaz de aparecer até em foto de satélite”, brinca.

Keila acrescenta que gosta tanto da cor do “Corsinha”, que comprou pouco antes de se casar e já ganhou os apelidos de “Piu Piu” e “Skol”, que seu próximo sonho de consumo também tem o mesmo tom. “Quero um Celta amarelo”, diz. Keila só não se conforma de ter sido esnobada no trânsito em Bauru pelo dono de um outro Corsa amarelo igual ao seu. “Paramos no sinal e pensei que ele fosse até brincar com a gente, mas ele nem deu bola”, protesta.

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