O Hospital das Clínicas (HC) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu está entre os candidatos junto à Secretaria de Estado da Saúde para tornar-se um Centro de Referência em Cirurgia Cardíaca para adultos e crianças.
Se for credenciada como referência, a instituição poderá ampliar o número de leitos para atendimento cardíaco e o número de procedimentos realizados mensalmente. A meta da secretaria, segundo assessoria de imprensa, é realizar pelo menos 120 intervenções por ano em cada centro. Hoje, o HC executa uma média de seis a oito cirurgias mensais.
De acordo com o cardiologista pediátrico Rossano César Bonatto, professor na Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu, o objetivo do Estado em credenciar novos serviços de cirurgia cardíaca é diminuir a fila de espera para o procedimento.
“O Estado de São Paulo tem hoje cerca de 500 crianças nessa fila, sem contar os adultos. Algumas têm de esperar três, quatro anos para operar e muitas não resistem todo esse tempo. Só aqui no HC, temos 20 crianças na fila de espera”, comenta o especialista.
Coordenador do serviço, junto com Bonatto, o cardiologista pediátrico José Roberto Fioretto explica que, se receber o título de Centro de Referência, o hospital terá toda a sua estrutura de apoio em cirurgias cardíacas ampliado.
“A Secretaria de Estado de Saúde privilegiou as instituições que já têm experiência nesse tipo de tratamento e está dando preferência para os hospitais que estão vinculados a universidades. Com o credenciamento, o serviço, que hoje compartilha leitos de enfermaria e UTI (Unidade de Terapia Intensiva) com outros tipos de tratamento, terá leitos exclusivos à cirurgia cardíaca”, comemora.
Bonatto justifica a comemoração. “Essas 20 crianças que estão na fila só não podem ser operadas agora porque não temos leitos suficientes para o pós-operatório. No Centro de Referência, o leito para cirurgia cardíaca só pode ser ocupado por um paciente de cirurgia cardíaca, ou seja, se tivermos dez leitos, teremos dez cirurgias”, descreve.
Segundo os cardiologistas, o pós-operatório exige, em média, de cinco a sete dias de internação. O paciente fica 48 horas em UTI para observação e, se estiver bem, passa mais alguns dias na enfermaria até ter alta. “Mas, se houver uma complicação, esse tempo pode se estender. Eu já vi um paciente ficar um mês na UTI. Por isso são tão importantes esses leitos vinculados”, informa Bonatto.
A cirurgia cardíaca é considerada um procedimento de alta complexidade. Além de envolver um órgão vital, ela atinge uma grande extensão do organismo. “O paciente passa pelas mãos de pelo menos 20-25 profissionais entre o diagnóstico da doença e a alta pós-cirúrgica”, ressalta Bonatto.
“Por isso, a cirurgia cardíaca requer uma equipe muito bem treinada e entrosada. Requer equipamentos de ponta que são caríssimos. E exige que o pós-operatório passe obrigatoriamente pela UTI. O coração é parado durante a cirurgia. É uma máquina acoplada ao organismo que faz o sangue circular durante o procedimento. E quanto menor o peso do paciente, maior é o risco da operação”, acrescenta.
Segundo os especialistas, cerca de 95% das cirurgias cardíacas pediátricas são indicadas para tratar cardiopatias congênitas (de nascença). Estima-se que 0,5% a 1% dos nascidos vivos e 1% a 1,5% dos bebês nascidos prematuros apresentem alguma deformidade importante na anatomia do coração. “Boa parte deles terão de ser operados logo depois do nascimento”, alerta Bonatto.
O credenciamento do HC como referência deverá beneficiar toda a região. Além de Botucatu, também aguardam uma resposta da Secretaria de Estado de Saúde os hospitais de Ribeirão Preto e São José do Rio Preto.