Articulistas

Recado das eleições


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As eleições municipais de domingo 3 de outubro foram, sem dúvida, um espetáculo de maturidade democrática. É formidável que num país do tamanho do Brasil e com tantas disparidades sociais, não se tenha dado um único incidente capaz de macular o processo eleitoral.

O eleitor mandou dizer aos caciques tradicionais que os seus reinados estão expirando. O clã Sarney, não obstante o poder de articulação do presidente do Senado, foi derrotado na própria casa. O senador Antonio Carlos Magalhães, monarca absoluto da Bahia de Todos os Santos, enfrentou inusitadas dificuldades no seu território. Paulo Maluf, depositário tradicional de um bom pacote de votos, está, certamente, alijado de novas aventuras para cargos majoritários. Três exemplos. Emblemáticos.

Assistiremos, mareados, ao espetáculo de acordos surrealistas e, certamente, aéticos. Mas o eleitor não é pau-mandado de ninguém. Ele valoriza o seu voto. Impressionou-me a alegria estampada no rosto de um jovem que votava pela primeira vez. “Eu estou mudando o Brasil”, comentou com o idealismo próprio da idade.

Outro recado claro dos eleitores: a crescente demanda de competência e honestidade. O rolo compressor da onda petista esbarrou, em São Paulo, em um dique discreto, mas eficiente: o governador Geraldo Alckmin. Administrador moderno e político ético, Alckmin foi o grande eleitor do Estado. Todos, até mesmo a prefeita Marta Suplicy, tentaram capitalizar a força da imagem do governador. Resultado: mais do que a vantagem de José Serra na Capital, o governador de São Paulo foi responsável pelo bom desempenho do PSDB na maioria das grandes cidades do Estado. Com 191 vitórias no primeiro turno e as 9 disputas asseguradas no segundo turno, os tucanos podem alcançar 200 prefeituras no Estado, contra 53 conquistadas pelo PT. Campanhas milionárias e imagens produzidas já não seduzem tanto o eleitor. Durante décadas assistimos à agonia da política e ao advento do espetáculo. As superproduções do criativo Duda Mendonça não se mostram suficientes para garantir a vitória.

A verdade, caro leitor, é que o Brasil está passando por uma profunda transformação. O resgate dos valores éticos e a consciência da cidadania estão na base dessa mudança. E a mídia, livre e responsável, tem papel essencial no processo. Um jornalismo cor-de-rosa é socialmente irrelevante. A imprensa, sem precipitação e injustos prejulgamentos, tem o dever de colaborar na recuperação da ética na vida pública. Nosso compromisso, e também o seu, caro leitor, não é com as celebridades, mas com a verdade. E nada mais. (O autor, Carlos Alberto Di Franco, é diretor do Master em Jornalismo para Editores e professor de Ética Jornalística)

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