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Panorama visto da ponte


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Fiz aniversário e ganhei uma passagem para os Estados Unidos da minha mulher. Infelizmente, ela não quis ir junto comigo e o presente ficou pela metade. Depois de quatro vezes revistado, minha modesta malinha revirada, tirar os sapatos duas vezes para passá-los pelo raio-x e sofrer demorado interrogatório do FBI por causa de uma tesourinha de unha apreendida (esqueci-a na bagagem de mão), cheguei a “Niviorque”. Meu primeiro desejo: ir ao celebrado Museu Guggenheim, no belo e audacioso prédio projetado por Frank Lloyd Wright, incrustado na área mais elegante na cidade. Era a figurinha que faltava no meu álbum. Na portaria, um segurança de luvas cirúrgicas e lanterna na mão inspecionou a minha bolsa. Desconfiou da câmera digital que havia acabado de comprar. Chacoalhou-a junto ao ouvido, não ouviu nenhum tic-tac e resolveu me deixar em paz. O lado bom é que descobri que agora sou “senior” nos Estados Unidos. Tenho direito a meio-ingresso nos museus, nos teatros da Broadway e passe especial para o metrô e ônibus urbanos. Good!

O panorama visto da ponte do Brooklyn mudou muito. Vocês não sabem como o World Trade Center faz falta no skyline, aquele perfil dos arranha-céus do centro financeiro visto do outro lado do East River. Parece uma boca de jeca sem os dois dentes da frente. Assim mesmo a visão da paisagem continua imperdível, principalmente à noite, quando as luzes dos prédios permanecem todas acesas. Do lado do Brooklyn existe um deck de onde a gente pode assistir esse espetáculo, pouco conhecido dos turistas. Daquele ponto, os ingleses iniciaram o assalto à Ilha de Manhattan para expulsar os holandeses. Vejam vocês... os judeus-holandeses que compraram a ilha dos índios, por US$ 21, vieram do Recife depois da saída de Maurício de Nassau. A maioria deles havia nascido no Brasil. Portanto, nossa Pindorama tem a ver com a fundação de Nova York.

Perguntei a um americano como é que os síndicos dos enormes arranha-céus de 40 andares para cima, largavam todas as luzes acesas. A conta de energia deveria ser astronômica. Para surpresa minha, ele informou que era mais barato deixar as luminárias acesas do que apagá-las. A Prefeitura de Nova York dá incentivos fiscais para quem colabora para a grandiosidade do grande espetáculo das luzes da cidade. Sem elas, a Maçã perderia a graça.

Estranho que ninguém mais pense em ir ao Empire State Building para tirar fotos ao lado do gorila King-Kong, ou à Estátua da Liberdade. O grande centro turístico é o buraco que sobrou das Torres Gêmeas. O Marco Zero (Ground Zero) parece um Santuário, tal a fila de peregrinos ávidos por satisfazer o desejo mórbido de ver o local do desastre. Os novaiorquinos querem exorcisar seus demônios e detestam essa orda de turistas.

Informam que ali vai surgir a torre da Liberdade que terá 532,8 metros de altura. Americano não perde a mania de grandeza. Será o maior prédio do mundo quando ficar pronto em 2009. Também está planejada a construção de um memorial permanente que vai transformar a base do que foi o WTC em um espelho d’água. Ao redor da água estarão escritos os nomes das vítimas. Tremo só em lembrar que minha irmã trabalhava no 101 andar, na financeira inglesa Cantor. Meses antes do atentado, ela deixou o emprego para ganhar mais no Banco WestLb, na 5a. Avenida. Morreram todos os seus 700 colegas. Inclusive a amiga que ela deixou no seu lugar. Só um pedaço da perna foi encontrado. Arrepio quando ela conta. Há noites em que eu sonho com o chiquésimo restaurante que havia no último andar, chamado “Windows on the World” - Janelas para o Mundo. Imagino todos aqueles mármores, cristais, porcelanas e toalhas de linho que se evaporaram sob o calor de 3.500 graus gerados pela explosão do avião.

Sentei num café na Wall Street para recuperar as energias. Dois seguranças que mais pareciam o guarda-roupas da minha avó logo me abordaram para saber de quem era a bolsa que havia deixado na cadeira ao lado. Já que era minha, que eu a segurasse no colo. Acho que tenho cara de terrorista muçulmano disfarçado sem a barba. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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