A necessidade de economizar energia elétrica fez com que o técnico em enfermagem Frederico Leite Gasparoto partisse para a pesquisa e construísse um aquecedor solar caseiro. Com o invento, ele conseguiu baixar sua conta de R$ 140,00 para R$ 65,00.
A “engenhoca” tem várias vantagens sobre o aquecedor solar convencional, segundo o inventor. É que, além de economizar energia, também utiliza material reciclável. Ele usa garrafas PETs transparentes, isopor e condutores de PVC, o que faz com que o custo da invenção caia pela metade, o que facilita o acesso das pessoas de baixa renda e retira do meio ambiente a poluição causada pelo plástico das garrafas PETs.
O “professor Pardal” de Botucatu começou suas criações inventando um chuveiro a gás na época do apagão. “A gente tinha que economizar energia. Se passasse daquela meta tinha que pagar mais. Percebi que o gasto maior de energia da casa era com o chuveiro. Desenvolvi um chuveiro a gás que funcionou bem.”
O primeiro invento do técnico em enfermagem era viabilizado por um infravermelho, daqueles usados nas máquinas de assar frango. “Era uma caixa d’água e uma bomba de máquina de lavar com saída de água. A água circulava e misturava com a água fria da rua”, comenta.
A conta de energia baixou com o chuveiro a gás, mas quando acabou a crise, o técnico em enfermagem deixou a “engenhoca” de lado e voltou a usar o chuveiro convencional. “Um botijão de gás foi usado por mais de dois meses.”
Luz solar
A conta de energia elétrica da casa de sete cômodos e habitada por três pessoas tinha um gasto em torno de R$ 140,00. “Isso há mais de dois anos. Eu assustei e decidi que ia descobrir o princípio do aquecedor solar e reduziria os gastos com energia elétrica”, conta o técnico.
O primeiro passo foi aprofundar os conhecimentos. “Eu tinha feito um cursinho de eletrônica e fui estudar física. Comecei a estudar e vi que o aquecimento solar funciona por diferença de densidade. Estudei um pouco mais e descobri que podia aquecer a água.”
Mas o que Gasparotto queria era aquecer a água sem ter que adquirir o aquecedor solar convencional. “Cotei preço. O mais barato, fabricado em material plástico, custa cerca de R$ 400,00 só o aparelho.”
O “professor Pardal” queria algo mais barato, que não pesasse em seu orçamento mensal. “Comecei a experimentar. Usei primeiro o duto comum pintado de preto, mas não deu um resultado satisfatório. Fiquei pensando o que eu estava fazendo de errado.”
Na busca de soluções para resolver o problema, o inventor foi pesquisar. “Eu tinha que descobrir como não deixar o calor fugir do duto. Foi ai que me lembrei do efeito estufa. Fui estudar como funcionava. Encontrei na Internet um trabalho feito com garrafas PETs que provocava o efeito estufa. Quando terminei, juntei os dois.”
A próxima etapa era descobrir como o processo poderia ser melhorado. “Descobri que a onda de luz solar, quando ela bate numa superfície preta, muda o comprimento. A onda de luz solar bate no condutor (cano preto) que muda o comprimento dela.”
Dentro da garrafa PET transparente, o comprimento da onda não volta para a atmosfera. “A onda bate no plástico e volta para o tubo de novo, rebate no tubo e volta para o plástico. Ela fica lá dentro batendo até ser absorvida, até ocorrer a troca de calor. Esse é o efeito estufa.”
O teste
Com os conhecimentos na ponta da língua, o técnico em enfermagem imaginou o efeito num coletor maior. “Eu fiz um teste.” A frente de sua casa passou a ser o palco de suas experiências. “Montei o esquema na frente da minha casa. Comecei com tambor de plástico, condutores, usei mangueira preta de construção, num dia de muito sol. Eu já estava para desistir da idéia porque não conseguia fazer a água circular. A última tentativa que eu fiz foi com o duto de PVC. Furei a garrafa PET, coloquei o cano por dentro de várias PETs (cinco ou seis) e emendei uma do lado da outra. Coloquei um condutor comum para os dois, entrada da água fria por baixo e entrada da quente por cima, em alturas diferentes na caixa.”
Foi aí que, o inventor conseguiu desvendar o segredo. “Eu não conseguia aquecer a água porque a chegada da água quente é no meio da caixa. Esse é um dos segredos para o bom funcionamento.”
Ele comenta que foi quase sem querer que descobriu o segredo do aquecedor solar convencional. “Eu pensei: não vou encher a caixa até o final. Deixei e fiquei olhando e percebi que a água passou a circular. Como começou a funcionar, deixei. No final da tarde, a água estava fervendo.”
A água aquece de cima para baixo, percebeu o técnico em enfermagem. “Quando eu encho a caixa até em cima não funciona porque a água aquece de cima para baixo. A água fria entra e vai perdendo calor, por isso eu não conseguia esquentar.”
Ele explica que a água quente muda a densidade e sobe. “Quando sobe puxa a que está embaixo fazendo um sistema fechado até ela chegar aos 51 graus. Gastei muita caixa para chegar nisso.”
Outra etapa
Depois de tudo pesquisado, ainda restava uma dúvida: como usar isso em casa. “Subi no telhado. Coloquei a caixa de isopor com a alimentação da água da rua e liguei no meu chuveiro. Fiquei uma manhã fazendo isso.”
No final do dia, o “professor Pardal” de Botucatu abriu a caixa. “Foi o primeiro banho que eu tomei sem o uso da energia elétrica. Isso aconteceu em fevereiro deste ano, quando o aquecedor entrou em funcionamento.”
Ele frisa que depois de fevereiro nunca mais usou a energia para esquentar a água do chuveiro. “Mesmo nos dias chuvosos ou de muito frio, o uso da energia elétrica foi parcial, porque a luminosidade, ainda que fraca, deixa a água morna. Chegando pré-aquecida, ela economiza energia e se eu precisar ligar o chuveiro, vou gastar menos.”
Segundo ele, nos dias quentes, o chuveiro fica desligado e a água atinge temperaturas tão altas que é preciso misturar água fria para tomar banho.
Economia de água
Um registro comprado em casa de material de construção completa o arsenal de economia na casa do técnico em enfermagem, Frederico Leite Gasparotto. “É um registro portátil. Minha conta passou de R$ 33,00 para R$ 21,00”, comemora.
Aperfeiçoar
Melhorar a invenção. Essa é a idéia que moveu o técnico em enfermagem a buscar aperfeiçoamentos no aquecedor solar caseiro. “No começo, era um coletor. Coloquei outro coletor. Isso fez com que, às 10h da manhã, eu já pudesse contar com água quente. Percebi que quanto mais coletores, mais rápido a água fica quente.”
De acordo com ele, o invento vai ser patenteado. “Estou tentando patentear. É muita burocracia. É um projeto de domínio público. Este aquecedor solar caseiro deve custar cerca de R$ 200,00, no máximo, e é uma alternativa para o público de baixa renda, mas para a instalação é necessário ter algum conhecimento em hidráulica.”