Na opinião de especialistas,
a candidatura de lideranças
comunitárias para cadeiras
no Legislativo tem tanto
facetas positivas quanto negativas.
Em geral, os entrevistados
do JC nos Bairros acreditam
que a cidade não perde
por não ter eleito representantes
diretos de determinados
bairros.
Para Celso Zonta, especialista
em desenvolvimento de
comunidade, o lado positivo
da candidatura de líderes comunitários
é evidente. “Todo
agrupamento social que se organiza,
se desenvolve, reflete
e discute seus problemas tem
na forma política a forma
mais superior de organização.
Todos os movimentos sociais
precisam desembocar nas formas
organizadas politicamente
para que suas reivindicações
sejam socialmente canalizadas”,
diz.
Na prática, entretanto, há
inúmeros problemas. Um deles
está na origem da candidatura
dos líderes comunitários.
Geralmente eles são convidados
pelos partidos.
“A participação é positiva
do ponto de vista teórico. Do
ponto de vista prático, é lastimável
porque são pessoas que
não estão devidamente preparadas
e são encaminhadas para
estas formas de participação
apenas porque um partido
chamou, e não porque a sociedade
local levou-o a isso”,
avalia.
Outro obstáculo detectado
por Zonta é a concepção errada
da função do vereador.
“Por ser um representante eleito
pelo voto, o vereador tem o
poder de pressão sobre a autoridade
municipal. O vereador
não foi feito para ser o representante
do bairro. O parlamento
local não foi feito assim”,
reforça.
Segundo o especialista, a
comunidade vê nos líderes
comunitários que se candidatam
a esperança de solucionar
problemas locais. “A Câmara
Municipal não foi feita
para isso. O vereador tem é
um certo poder político de
pressão que a comunidade
não tem. E, muitas vezes, a
comunidade usa o vereador
como um interlocutor para solicitar
coisas para aquela comunidade”,
observa.
Zonta afirma que muitos líderes
comunitários são usados
como ‘laranjas’ por partidos
políticos já que eles têm
mais chances de receber os votos
da população de bairros periféricos.
“Os políticos escolhem
pessoas de boa capacidade de
voto para aumentar as chances
de se eleger. E a participação
dessas pessoas acaba sendo
desvirtuada”, salienta.
Na hora de escolher seu representante
e votar, as pessoas
não devem visar apenas
interesses materiais próprios,
segundo Zonta. “A população
precisa desenvolver uma educação
cidadã para ocupar os
espaços de maneira independente
e digna politicamente,
que de fato represente sua comunidade”,
avalia.
Para o historiador político
Maximiliano Martin Vicente,
professor da Universidade Estadual
Paulista (Unesp), a participação
de líderes comunitários
em eleições municipais
seria vista com bons olhos se
estivesse vinculada ao voto
distrital.
“No sistema atual é difícil.
Não temos um poder descentralizado,
então gera uma relação
de dependência muito forte
da associação de bairro em
relação à prefeitura. Se houvesse
descentralização, seria
mais fácil surgir novas lideranças”,
avalia.
Mas será que a cidade perde
com a falta de representatividade
de lideranças comunitárias
na Câmara Municipal?
“No atual sistema, nem perde
nem ganha”, acredita Vicente.
“Desde que o vereador faça
a função dele, que é fiscalizar
o executivo. Se ele faz isso,
creio que não se perde muito”,
acrescenta o historiador.
Hoje, o voto do eleitor que
escolhe um representante de
bairro para o cargo de vereador
não tem tanta força. Segundo
Vicente, isso seria diferente
com o voto distrital. “Se
você instala o voto distrital, isso
seria maravilhoso porque
teríamos uma votação por população”,
explica.
Ele acredita que o morador
que tenta eleger um outro
morador do bairro para o Legislativo
tem em mente que terá
um vereador por perto para
dialogar.
“Ele vai poder conversar
com o vereador e vai se sentir
representado porque vai poder
cobrar. No sistema atual,
a cobrança é difícil. Você não
encontra o vereador, não dialoga
com ele, não conversa”,
destaca.
O historiador explica que
através do voto distrital seria
mais fácil eleger representantes
de bairros. “No voto distrital,
o candidato tem de provar
que reside no bairro e determinada
região da cidade teria
uma quantidade específica de
vereadores, proporcional ao
número de habitantes.
Talvez esta seja a explicação
para que nenhum membro
de associação de moradores
tenha sido eleito para o
próximo mandato, que terá início
em 2005.
“No sistema atual, não funciona
votar em líderes comunitários.
O número de votos
que a pessoa precisa é grande
e não é todo mundo que vota
no presidente da associação
de moradores”, reforça.
Zonta e Vicente concordam
que uma das melhores
formas de melhorar a situação
atual é investir em educação
para a cidadania.
“É necessário tornar o cidadão
consciente para o benefício
coletivo. Está na hora de
pensar em política a longo prazo,
e não a curto prazo. Se o
prefeito conseguisse fortalecer
os conselhos de bairro e
envolver a comunidade já seria
uma coisa fantástica”, diz
o historiador.
O professor da Unesp insiste
em que o melhor resultado
seria aquele em que os moradores
tivessem um vereador
por perto. “Democracia é
diálogo. Enquanto você não
cobrar, a cidadania está truncada”,
frisa.