Bairros

Cidade não perde com resultado

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 4 min

do JC nos Bairros acreditam

que a cidade não perde

por não ter eleito representantes

diretos de determinados

bairros.

Para Celso Zonta, especialista

em desenvolvimento de

comunidade, o lado positivo

da candidatura de líderes comunitários

é evidente. “Todo

agrupamento social que se organiza,

se desenvolve, reflete

e discute seus problemas tem

na forma política a forma

mais superior de organização.

Todos os movimentos sociais

precisam desembocar nas formas

organizadas politicamente

para que suas reivindicações

sejam socialmente canalizadas”,

diz.

Na prática, entretanto, há

inúmeros problemas. Um deles

está na origem da candidatura

dos líderes comunitários.

Geralmente eles são convidados

pelos partidos.

“A participação é positiva

do ponto de vista teórico. Do

ponto de vista prático, é lastimável

porque são pessoas que

não estão devidamente preparadas

e são encaminhadas para

estas formas de participação

apenas porque um partido

chamou, e não porque a sociedade

local levou-o a isso”,

avalia.

Outro obstáculo detectado

por Zonta é a concepção errada

da função do vereador.

“Por ser um representante eleito

pelo voto, o vereador tem o

poder de pressão sobre a autoridade

municipal. O vereador

não foi feito para ser o representante

do bairro. O parlamento

local não foi feito assim”,

reforça.

Segundo o especialista, a

comunidade vê nos líderes

comunitários que se candidatam

a esperança de solucionar

problemas locais. “A Câmara

Municipal não foi feita

para isso. O vereador tem é

um certo poder político de

pressão que a comunidade

não tem. E, muitas vezes, a

comunidade usa o vereador

como um interlocutor para solicitar

coisas para aquela comunidade”,

observa.

Zonta afirma que muitos líderes

comunitários são usados

como ‘laranjas’ por partidos

políticos já que eles têm

mais chances de receber os votos

da população de bairros periféricos.

“Os políticos escolhem

pessoas de boa capacidade de

voto para aumentar as chances

de se eleger. E a participação

dessas pessoas acaba sendo

desvirtuada”, salienta.

Na hora de escolher seu representante

e votar, as pessoas

não devem visar apenas

interesses materiais próprios,

segundo Zonta. “A população

precisa desenvolver uma educação

cidadã para ocupar os

espaços de maneira independente

e digna politicamente,

que de fato represente sua comunidade”,

avalia.

Para o historiador político

Maximiliano Martin Vicente,

professor da Universidade Estadual

Paulista (Unesp), a participação

de líderes comunitários

em eleições municipais

seria vista com bons olhos se

estivesse vinculada ao voto

distrital.

“No sistema atual é difícil.

Não temos um poder descentralizado,

então gera uma relação

de dependência muito forte

da associação de bairro em

relação à prefeitura. Se houvesse

descentralização, seria

mais fácil surgir novas lideranças”,

avalia.

Mas será que a cidade perde

com a falta de representatividade

de lideranças comunitárias

na Câmara Municipal?

“No atual sistema, nem perde

nem ganha”, acredita Vicente.

“Desde que o vereador faça

a função dele, que é fiscalizar

o executivo. Se ele faz isso,

creio que não se perde muito”,

acrescenta o historiador.

Hoje, o voto do eleitor que

escolhe um representante de

bairro para o cargo de vereador

não tem tanta força. Segundo

Vicente, isso seria diferente

com o voto distrital. “Se

você instala o voto distrital, isso

seria maravilhoso porque

teríamos uma votação por população”,

explica.

Ele acredita que o morador

que tenta eleger um outro

morador do bairro para o Legislativo

tem em mente que terá

um vereador por perto para

dialogar.

“Ele vai poder conversar

com o vereador e vai se sentir

representado porque vai poder

cobrar. No sistema atual,

a cobrança é difícil. Você não

encontra o vereador, não dialoga

com ele, não conversa”,

destaca.

O historiador explica que

através do voto distrital seria

mais fácil eleger representantes

de bairros. “No voto distrital,

o candidato tem de provar

que reside no bairro e determinada

região da cidade teria

uma quantidade específica de

vereadores, proporcional ao

número de habitantes.

Talvez esta seja a explicação

para que nenhum membro

de associação de moradores

tenha sido eleito para o

próximo mandato, que terá início

em 2005.

“No sistema atual, não funciona

votar em líderes comunitários.

O número de votos

que a pessoa precisa é grande

e não é todo mundo que vota

no presidente da associação

de moradores”, reforça.

Zonta e Vicente concordam

que uma das melhores

formas de melhorar a situação

atual é investir em educação

para a cidadania.

“É necessário tornar o cidadão

consciente para o benefício

coletivo. Está na hora de

pensar em política a longo prazo,

e não a curto prazo. Se o

prefeito conseguisse fortalecer

os conselhos de bairro e

envolver a comunidade já seria

uma coisa fantástica”, diz

o historiador.

O professor da Unesp insiste

em que o melhor resultado

seria aquele em que os moradores

tivessem um vereador

por perto. “Democracia é

diálogo. Enquanto você não

cobrar, a cidadania está truncada”,

frisa.

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