Regional

Índios discutem estratégias de inclusão no ensino superior

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 4 min

Avaí - Definir estratégias de acesso ao ensino superior e discutir a criação de uma associação de estudantes indígenas do Centro Oeste Paulista. É com esse objetivo que representantes terenas, guaranis, caigangues e krenak estarão reunidos hoje, a partir das 9h, na reserva de Araribá, em Avaí (39 quilômetros a Noroeste de Bauru).

Segundo o terena Edenilson Sebastião, chefe de posto da aldeia Kopenoty, com a criação da associação, o grupo pretende unir forças para reivindicar bolsas de estudos para estudantes indígenas em instituições de ensino e recursos financeiros junto aos órgãos governamentais para o transporte e manutenção dos índios nas universidades.

“Eles (estudantes indígenas) estão querendo criar essa associação para ter uma representatividade”, diz o terena. “O objetivo principal é que essa associação consiga articular as políticas públicas na área da educação indígena”, completa.

Atualmente, nove índios da reserva de Araribá são bolsistas de instituições de ensino superior. Sete estão matriculados na Universidade do Sagrado Coração (USC), e dois na Faculdade de Ciências Jurídicas e Gerenciais de Garça (Faef). As bolsas foram concedidas por meio de uma parceria firmada entre a comunidade indígena e as instituições.

Apesar de representar um avanço, segundo Sebastião, somente esses convênios não atendem todos alunos da reserva que estão terminando o ensino médio e têm interesse em cursar uma universidade.

“Muitos alunos (cerca de dez) estão terminando o ensino médio neste ano e não têm vagas suficientes para atender toda a demanda”, diz. “O índio não tem condições de bancar o estudo de seu filho”, completa o chefe de posto.

O terena ressalta que a conquista de bolsas de estudo é apenas um dos passos dentro do processo de inclusão dos índios no ensino superior. Isso porque, segundo ele, a comunidade tem dificuldades financeiras para arcar com os gastos com alimentação, transporte, ou hospedagem dos estudantes nas cidades onde estão instaladas as universidades.

“A associação precisa fazer uma articulação com o município e o governo do Estado para buscar alternativas e fazer com que os índios possam realmente continuar seus estudos em nível superior”, diz o chefe de posto, destacando que alguns estudantes da reserva desistiram do projeto por conta das dificuldades.

Retorno

Com o acesso a universidades, Sebastião afirma que as aldeias esperam receber um retorno dos estudantes indígenas. “Nós queremos fazer com que eles possam prestar serviços dentro de sua própria comunidade. Na área da educação, podemos utilizar os alunos que estão fazendo pedagogia. Os alunos que estão fazendo história, podem trabalhar na própria história da sua comunidade, das suas etnias. O objetivo é fazer com que eles apliquem o que estão aprendendo lá fora dentro da própria aldeia”, destaca.

Segundo o Terana, o grau de escolaridade dos jovens dentro da reserva tem aumentado nos últimos anos. Na avaliação dele, o movimento foi possível devido à criação de escolas indígenas dentro das aldeias. Com o aumento do número de jovens concluindo o ensino médio, cresce também a demanda de indígenas que querem ingressar na universidade.

“Os índios estão demonstrando bastante interesse de continuar os estudos com o objetivo de se formar e prestar o atendimento para seu próprio povo, melhorar as condições de vida das comunidades indígenas”, conclui o terena, para quem os índios precisam contar com uma política diferenciada de inclusão na comunidade acadêmica.

O primeiro integrante de Araribá a concluir um curso superior foi uma índia formada em enfermagem no ano passado pela USC. Atualmente, ela trabalha na Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e presta atendimento a comunidades indígenas do Paraná.

A exclusão da população indígena na área da educação é uma realidade demonstrada pelas estatísticas. De acordo com o Ministério da Educação (MEC), dados do Censo 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontaram que o Brasil possui 700 mil indígenas, dos quais apenas 0,5% concluiu algum curso superior.

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Dívida

Na opinião de Gesiane Folkis, secretária-geral da Universidade do Sagrado Coração (USC) e representante da comunidade de Araribá junto ao Núcleo de Educação Indígena do Estado de São Paulo, a sociedade tem uma dívida social e histórica com os índios e a inclusão educacional é um caminho para reverter a marginalização dessas comunidades.

“Essa inclusão é um resgate histórico daquilo que estabeleceu diferenças entre índios e não índios. Os não índios, de certa forma, foram ocupando o espaço dos índios e esses ficaram confinados em reservas”, diz. “Isso, ao longo da história, cerceou qualquer oportunidade que eles têm de crescimento”, completa.

Para a representante, é importante preservar os valores e tradições indígenas e, ao mesmo tempo, criar mecanismos para que essa comunidade se integre aos outros grupos sociais. “Não se pode tirar deles o direito de, sem perder as características indígenas, também se integrar à comunidade não indígena”, destaca a professora, lembrando que o acesso à educação é uma ferramenta para o resgate cultural.

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