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Perda do mestre Sabino


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Recebi a notícia da perda de Fernando Sabino. Como se aquele instante fosse um vácuo, senti a dor aguda da perda e em meus olhos vieram lágrimas para um amigo que nunca conheci, mas que sempre esteve perto de mim.

Ainda muito novo tive contato com as crônicas de Fernando Sabino. E fazer crônicas, ah isso era com ele mesmo! Subitamente fui introduzido ao mundo da literatura, do qual sempre tinha mantido distância até então. Descobri os amigos de Sabino: Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Otto Lara Rezende e Helio Pellegrino, que, com suas palavras encantaram uma geração. “Os quatro cavaleiros de um íntimo apocalipse” aos poucos se despedem da vida, mas deixam suas histórias como símbolo inabalável para pessoas que simplesmente aprenderam a gostar de ler pelos seus escritos.

Aos poucos, me lembro, fui comprando as obras de Sabino. Ria sozinho, ria feliz com suas crônicas, que sempre me transportaram para algum lugar distante, como em “A Cidade Vazia” ou até mesmo para minha casa, como em “A Falta que Ela me Faz”. Descobri que, assim como eu, ele tocava bateria e era amante do jazz. Mas, para mim, ele era um mestre na arte das crônicas e por intermédio delas conheci os romances e neste momento comecei a apreciar a literatura. Seus romances foram poucos, porém, marcantes, como um encontro inesquecível. Quem não se lembra de Eduardo Marciano, por exemplo, e seus amigos Mauro e Hugo na versão de cunho autobiográfico dos temores e incertezas sobre o amadurecimento na pacata Belo Horizonte? São histórias que ficarão para sempre na memória, histórias que influenciarão gerações.

Aquele menino que queria ser gramático e era, sem dúvida, um contestador desde cedo, acabou entrando na Faculdade de Direito, contudo, seduzido pela literatura, não conseguiu fugir de seu destino: ingressou como redator da “Folha de Minas”. Seu primeiro livro “Os Grilos não Cantam Mais” veio quando ainda tinha menos de 20 anos. Formado em Direito, em 1946 seguiu com Vinícius de Moraes para Nova York para trabalhar no Escritório Comercial do Brasil e no Consulado Brasileiro. Lá, começou a escrever “O Grande Mentecapto”. Nunca mais se distanciou da literatura.

Quando retornou ao Brasil, passou a escrever crônicas para jornais e criou sua própria editora, a Sabiá, que depois foi vendida. Ficou com sua coluna em jornais como Diário Carioca e O Jornal, de propriedade de Assis Chateaubriand. De qualquer forma, a reunião de suas crônicas se dava em seus livros, e entre eles, existem vários inesquecíveis, como “O Menino no Espelho”, “O Gato sou Eu”, “A Volta por Cima” e outras memoráveis, como “A Faca de Dois Gumes” e “Deixa o Alfredo Falar!”.

Se hoje, em frente a este computador, posso, de alguma forma, agradecer ao mestre por seus ensinamentos, fico feliz que possa ser por meio da escrita, aquilo que uniu Sabino a mim, como a várias outras pessoas de diversas gerações. Ele continuará guardado em minha biblioteca e na minha memória como alguém que, despertando meu gosto pela leitura, me mostrou um mundo novo, novas fronteiras, horizontes. Aqui, infelizmente, me despeço do homem que não conheci, e agradeço ao meu grande e eterno amigo de tardes de domingo, manhãs de sábado e de tantas e tantas viagens. Você fará falta para todos nós. Descanse em paz. Fizeste diferença no mundo. Você nasceu homem, mas morreu menino.

O autor, Márcio Chalegre Coimbra, é advogado e sócio da Governale - Políticas Públicas e Relações Institucionais

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