Pesca & Lazer

Pescar no Pantanal é garantia de surpresas

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 4 min

Cada viagem ao Pantanal mato-grossense comprovo minha tese de que pescar no “santuário” da maior planície alagada do mundo é sempre diferente. Mais uma vez pude obter prova disso ao participar, pelo terceiro ano consecutivo, da tradicional pescaria promovida pela General Motors (GM) do Brasil a um seleto grupo de jornalistas da imprensa automotiva especializada do País.

Já disse isso no ano passado quando escrevi sobre minha aventura, mas, realmente, o Pantanal reserva surpresas em cada metro quadrado por onde se ande nele ou nas cidades que lhe dão acesso, como a hospitaleira Corumbá e seu porto. Tal como nas vezes passadas em que tive a honra de ser convidado para o evento, esperava encontrar na pescaria deste ano, realizada em julho, o mesmo cenário dos anos anteriores. Enganei-me.

Logo de cara, ao chegarmos em Corumbá, notei que o clima estava mais ameno, bem diferente do calor úmido e abafado que “cozinhou” todos em 2003. Até uma leve brisa dava o “ar da graça” perto da embarcação alugada pela General Motors especialmente para o evento: o belo iate Kalypso, que não demorou e logo partiu para o início da aventura pantaneira.

Após navegarmos a noite inteira, aportamos em uma barranca do rio. Conforme combinado com meu companheiro de pescaria, o também jornalista José Henrique Senche, do jornal Folha da Região, de Araçatuba, acordamos “cedinho”, por volta das 6h, tomamos um “cafezinho”, pegamos as tralhas (varas, anzóis, linha e chumbadas reserva, protetor solar, chapéu, repelente e, principalmente, a licença de pesca) e saímos em busca dos peixes em um bote comandado pelo piloteiro de apelido Paulista, que havia escolhido na noite anterior justamente por simpatizar com a alcunha.

E, diferentemente do ano passado, quando, literalmente, senti na pele os terríveis efeitos dos ataques de pernilongos – confiei demais no repelente e tomei mais de 200 ferroadas por todo o corpo - por ter pescado vestindo uma bermuda, desta vez me preparei para vencer a “guerra” contra os insetos alados. Pesquei com uma calça grossa de moleton flanelado e com a barra enfiada por dentro das meias no coturno que calçava.

Foi eficaz, mas ainda assim não escapei da sanha por sangue dos pernilongos e fui ferroado nas mãos e nas costas, que deviam estar “protegidas” pelas camisetas de manga comprida, mas não foram suficientes contra os “insetinhos” que revoavam em nuvens próximos aos aguapés, principalmente antes do sol “acordar” de manhã.

Apesar desses pequenos contratempos com os mosquitos, a pescaria transcorreu-se com a tranqüilidade característica do Pantanal, quebrada apenas pelos sons da fauna e flora exuberante do local e por uma aventura de arrepiar os cabelos com uma onça pintada (veja texto abaixo). Além disso, voltei para casa com igual quantidade de peixes fisgados em relação ao ano passado – foram dez quilos, o permitido pela legislação ambiental -, mas com variedade bem maior de espécies: foram vários barbados, jurupensens, palmitos e, como não podia faltar, as famosas piranhas, todos devidamente fisgados nos rios Paraguai e São Lourenço.

Tudo isso só confirma o que afirmei no início desta reportagem. Toda e qualquer pescaria no Pantanal é, e sempre será, diferente da anterior, não importa quantas vezes se tem o prazer de ir até lá.

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Medo de onça

Falar das belezas do Pantanal é chover no molhado. Apesar das agressões que o homem insiste em repetir nos rios, principalmente a pesca predatória e a mania de utilizá-los como “lixões”, o local continua belo como nunca. Mas o que nunca mais esquecerei na vida é uma história que já contei recentemente aqui no JC na seção “História de Pescador”.

Ela ocorreu quando eu e meu companheiro de pesca, o jornalista José Henrique Senche, da Folha da Região, de Araçatuba (SP), e o piloteiro pescávamos calmamente com o barco apoiado nos aguapés à beira do rio Paraguai. Em determinado momento, o anzol do piloteiro enroscou e ele pediu para recolhermos a linha a fim de ligar o barco para desenroscá-la.

Foi quando o meu anzol também enroscou na vegetação próxima ao barco e o piloteiro resolveu livrar a minha primeiro. Funcionou o motor e posicionou a embarcação para puxar a linha. De repente, o José Henrique me chama, com os olhos arregalados e assustado, e fala: “Cara, isso é barulho de onça”. À primeira vista, achei que fosse brincadeira, mas fizemos silêncio, enquanto o piloteiro, ocupado com a linha, nem ligava para nossa conversa.

Imediatamente, ouvi um rugido forte, característico de onça pintada. Vi que não era brincadeira e, segundos depois, ouvimos outro rugido do animal, que certamente nos espreitava próximo à uma enorme árvore com raízes imensas, o único local que não podíamos enxergar com exatidão.

Rapidamente, avisamos o piloteiro, que não teve dúvidas: cortou as linhas, acionou o motor do barco e rapidamente nos afastou dali, pois sabia que com onça não se brinca. Longe dali, demos risada do episódio, mas que deu medo, ah isso deu...”

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