A linda música de Ari Barroso retrata um Brasil brasileiro, lindo e trigueiro, com toda a sua exuberância natural e um povo alegre e feliz. É o Brasil de todos nós. Um Brasil ideal, em parte real, e ao mesmo tempo, surrealista. É como deveria ser, como gostaríamos que fosse.Todavia, por trás desta cortina de beleza, há um País esquecido e abandonado, com lugarejos onde não chegam nem a luz elétrica, nem estradas. Localidades a partir das quais se levam horas ou mesmo dias de barco e caminhada para alcançar-se uma cidade que tenha médicos, remédios e outros luxos. Um Brasil sem pão, sem saneamento e sem água potável, entre outras tantas coisas. Um oceano de carências, que não são satisfeitas pelos governos, que cada vez arrecadam mais, algo como 40% de tudo o que é produzido, e fazem cada vez menos. Sempre menos com mais.Privatizaram estradas, portos, ferrovias, livrando-se de substancial parcela de antigos encargos, e ainda recebendo altas somas por esta auto-alforria de deveres.
Omitem-se daquilo que ainda lhes cabe fazer, como manter as rodovias que ninguém aceita explorar; recuperar ferrovias e implantar outras tantas, propiciando à sociedade um meio de transporte altamente eficiente - à beira de uma estrada de ferro pode-se assistir à passagem de um trem-cargueiro com mais de 100 vagões, transportando carga pesadíssima como minério de ferro; puxados por uma só locomotiva.Quem está recuperando uma destas ferrovias abandonadas é uma empresa privada, com o Expresso do Pantanal, que cruzará todo o Estado do Mato Grosso do Sul, levando algum alento àqueles que não dispõem de qualquer meio de locomoção que não o transporte fluvial.
Certas questões fogem à compreensão, como o fato da Agência Nacional do Petróleo (ANP) dispor de apenas 51 fiscais para inspecionar os postos e distribuidoras de combustíveis do País inteiro. Obviamente, a ANP poderia ter 500 agentes, ou mais, pois os gastos com estes efetivos extras seriam infinitamente menores do que o custo do Brasil da sonegação e da adulteração de gasolina, e seriam, adicionalmente, compensados com larga margem pelo aumento de arrecadação resultante das multas e dos impostos que seriam recuperados. O crime de sonegação, pelo não fornecimento de cupom ou nota fiscal, é praticado abertamente, ignorado pela sociedade.
Nem mesmo o cidadão pode ser fiscal - muito embora o alheamento popular a esta questão seja muito grande -, pois a Receita Federal e os Estados só aceitam denúncias formais, por escrito. E ninguém tem tempo a perder ou vontade de se expor a ponto de comparecer a uma unidade fiscal para isto. Se sonegação é crime, seria imensamente saudável para as contas da nação, bem como para a concorrência honesta, a criação de um, ou vários, disque-sonegação.
É necessário proteger os fiscais do Ibama, do trabalho e os demais, para que não mais ocorram homicídios como o dos quatro agentes do Ministério do Trabalho assassinados em Minas, por terem apresentado denúncias de trabalho escravo na região. O Estado não tem meios para suprir essas necessidades tão básicas porque gasta mal e arrecada mal. Tomando muito de uns e nada de outros.
Tem sido exaustivamente noticiado que os investimentos externos - ou as intenções de fazê-lo - no Brasil estão diminuindo, em parte por causa da insegurança do capitalista estrangeiro, causada pelo crescente aparelhamento da máquina estatal, das agências reguladoras, pela incansável burocracia - esta nunca tira férias - e má vontade de agentes públicos, que levam uma eternidade para aprovar projetos que dependem de legislação ambiental, além de outros fatores, como se pudéssemos continuar deitados em berço esplêndido e nada fosse urgente por aqui. É mais do que sabido que o destino preferencial do capital estrangeiro é a China, além da Índia e EUA. Por que haveriam de apostar numa nação tão mal administrada, que não sabe definir prioridades e cria empecilhos tantos que faz parecer ser um favor aceitar que invistam nela?
O autor, Luiz M. Leitão da Cunha, é administrador e articulista