Medo é a palavra-chave
para entender mudanças radicais
de hábitos por que vêm
passando muitos moradores
de Bauru. A sensação de insegurança
nos bairros é tão
grande que muita gente evita
ao máximo sair de casa, não
frequënta mais o mercado
do bairro e até deixa de ir ao
trabalho.
Além disso, é comum ver
casas que foram transformadas
em verdadeiras prisões
pela grande quantidade de
aparatos de segurança, como
cercas elétricas, grades, alarmes,
interfones e portões eletrônicos,
entre outros.
Os moradores, por sua
vez, escondem-se cada vez
mais atrás de toda essa parafernalha
e recusam-se até
mesmo a cultivar bons relacionamentos
com os vizinhos.
É o caso de Janete Santos
Silva, moradora do Parque
Santa Edwirges. Ela recusa-
se a sair de casa à noite e,
mesmo durante o dia, evita
andar pelo bairro.
Janete deixou até de ir ao
mercado por medo da violência.
Quando precisa fazer compras,
ela espera o marido e o casal
vai de carro a um supermercado
em outro bairro da cidade
(leia mais na página 2).
Maria de Lourdes dos Santos,
moradora do Parque Jaraguá,
também tem restrições a
sair de casa. “Eu não saio
mesmo. Por medo. Aqui é
um lugar perigoso, então eu
tenho medo. Para sair um tiro
não custa nada. Tem muita
violência. Graças a Deus não
aconteceu nada com a gente
ainda”, diz.
Aparecida Maria Padovan
Nogueira, moradora da Vila Industrial
3, reclama da situação.
“Aqui é assim agora: o morador
fica preso e o bandido fica solto.
É uma lei que a gente não queria,
mas infelizmente está assim.
É complicado”, destaca.
Muitas vezes, os moradores
são obrigados a mudar
seus comportamentos também
em relação aos infratores
do bairro. É preciso ter relação
de boa vizinhança.
“Eu me dou bem com todo
mundo. Eu sei que aqui na
vila tem bandido e eu conheço.
Só que nunca mexeram
na minha casa. Eles passam,
a gente cumprimenta. É melhor
falar bom dia, boa tarde
e boa noite. Não ter intimidade,
mas também não desfazer.
Tem que saber a medida
exata”, afirma.
Na casa de Aparecida, como
na maioria das casas visitadas
pelo JC nos Bairros, a
família estipulou uma espécie
de revezamento para sair
de casa. Sempre fica alguém
para cuidar do imóvel.
A moradora já deixou de ir
a festas e até de viajar com o
marido e os filhos por esse motivo.
“No último feriado, foram
todos viajar e eu tive de ficar para
cuidar da casa”, relata.
A psicóloga Maria Lúcia
Biem alerta para a possibilidade
da insegurança tornarse
uma neurose. Além disso,
existe a possibilidade de o
medo desencadear doenças
psicossomáticas.
“Eu diria que é uma tortura
mental. Hoje as pessoas
estão muito fragilizadas em
relação à segurança. Elas estão
se sentindo ameaçadas”,
diz a profissional.
Maria Lúcia orienta a população
a tomar os devidos
cuidados, mas evitando pensamentos
negativos. É importante
também orientar os filhos
sobre medidas preventivas
de segurança, mas sem
passar medo a eles.