Regional

Café da manhã vira ponto de encontro dos moradores de Fernão

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 3 min

Para muitos parece utopia, mas é a pura verdade. Em Fernão, os 1.432 habitantes podem tomar café da manhã juntos e desfrutarem da convivência em sociedade numa comunidade onde a solidariedade, o calor humano e a vida simples imperam.

Com a solidariedade em alta, os moradores de Fernão vivem como se estivessem em uma época em que o relacionamento humano se sobrepõe a tecnologia, a busca pelo ter e ao estresse. Tudo estaria em perfeita harmonia, não fosse a falta de emprego na entresafra.

Em Fernão as dificuldades dos moradores são compartilhadas não só pelos vizinhos, mas pela cidade e pela administração municipal, enfatiza o prefeito Adélcio Aparecido Martins. “Eu conheço todos os moradores da cidade e sei quando alguém está passando por alguma necessidade. Nosso relacionamento é muito próximo.”

Para manter a convivência, por ele tida como sadia, e evitar os gastos da população com o café da manhã, o prefeito oferece a refeição matinal de graça. “Não são todos os moradores que usufruem do benefício, mas há a possibilidade.”

O prefeito enfatiza que além da refeição o café da manhã acaba aprofundando as amizades. “Eles têm a oportunidade de conversar durante o café. São dois pãezinhos, leite e café a vontade.”

A convivência entre os moradores é tão boa, na opinião de alguns, que eles casam entre si. É o caso de Heloísa Helena Soares Ribeiro, que nasceu em Fernão, e casou-se com um rapaz que também nasceu na cidade. Os dois têm uma filha. “Eu estudei até a 8.ª série aqui mesmo. Fui fazer o 2.º grau em Garça, mas casei aqui”, comenta.

Para ela, viver em Fernão é ter uma vida simples e muito saudável. “Aqui não tem violência. Quando alguém nasce, morre ou faz festa, todos participam”. Mas como em toda família de muitos integrantes, há as ‘briguinhas’. “As vezes um encrenca com o outro porque todos sabem da vida alheia.”

A solidariedade, em contrapartida, é o ponto alto. “Quando minha vizinha deu à luz, minha mãe estava aqui em casa e foi ajudá-la a fazer o almoço, a cuidar do bebê. Os vizinhos são como irmãos. Emprestamos alguma coisa que precisamos e devolvemos depois. Eu me sinto feliz.”

A moradora diz que são raras as vezes em que fecha a porta da casa com chave. “A casa fica aberta. Depois do almoço deito na rede para fazer minha filha dormir e tiro uma soneca. Ninguém me incomoda. Não preciso de carro para me locomover dentro da cidade, tudo é muito perto.”

Para ir visitar os sogros que vivem na área rural, a três quilômetros de sua casa, a dona de casa faz uma caminhada. “Eu, minha filha e meu marido vamos a pé. É bom caminhar no campo.”

Alimentação sadia

O leite vem direto da fazenda com a facilidade de poder comprar no portão da casa, salienta a moradora Heloísa Ribeiro. “O leiteiro passa vendendo o leite. Com ele faço pão em casa. As verduras compramos direto da horta comunitária. A carne de porco vem do sítio, sem passar por congelamento, só a carne de vaca é que vem do frigorífico.”

A relação de confiança é um dos pontos altos dos moradores de Fernão. “Como a gente conhece as pessoas há muito tempo, existe uma relação de confiança. Quando alguém fala alguma coisa, a gente confia. Quando alguém viaja ou fica internado, por exemplo, a gente fica até com a chave da casa.”

A religiosidade também faz parte da rotina dos moradores de Fernão. “Todos os dias, as 18h, é rezada a Ave Maria. O som é ouvido até na área rural, de onde os agricultores têm a oportunidade de acompanhar a reza.”

Da rua principal de Fernão é possível visualizar a horta e parte da área agrícola do município. A moradora Adriana Martins Segura vê as plantações toda vez que abre a porta de sua casa. “Aqui é uma tranqüilidade. Tenho filho pequeno e se tenho alguma dificuldade recorro a um dos moradores que me atendem.”

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