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Por um Brasil sem sede


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Se já não existe, sugiro criá-lo: o Dia Nacional da Consciência da Água. Vou mais além: o Dia Nacional marcaria o Tríduo Urbano Nacional de Consciência da Água, que consistiria tomar uma medida radical para conscientizar os grandes centros urbanos sobre a importância da preservação da água no País. Por exemplo: durante três dias, a autoridades das cidades com mais de 60 mil habitantes decretariam o início das solenidades cortando o fornecimento de água para toda a população, resguardando apenas hospitais, creches, escolas e asilos. Até mesmo o setor industrial deveria ser afetado. Sabemos que o uso da água para matar a sede das populações urbanas ou mesmo para a higiene pessoal é mínimo, se compararmos com outras utilizações, tais como nos processos industriais ou mesmo na produção de alimentos. Mas sabemos também que só com a participação dos grandes centros urbanos será possível iniciar uma campanha nacional de preservação.

Estamos caminhando para uma crise sem limites de escassez de água. As futuras gerações amargarão duras conseqüências provenientes da nossa era de desperdício. Todos sabemos que a água de superfície se escasseia a cada dia.

Em cada cidade atua um órgão ou uma empresa responsável pelo abastecimento de água, os quais estão mais preocupados com a cobrança de tarifas ou apenas com a preservação de seus mananciais. Nada adiantaria atacar a ação das chamadas companhias de saneamento. Se elas não se preocupassem com o lucro, talvez não estivessem prestando hoje um serviço essencial à população. Lucro, sim! Mas com responsabilidade social.

Sabemos que é complexo o problema de abastecimento. Também sabemos que existem soluções simples, que poderiam estar sendo adotadas em todo o País. Temos muitos órgãos envolvidos com a questão, menos a população, que nada entende do ciclo hidrológico da água. A maioria dos pequenos agricultores não está preocupada com a utilização de técnicas adequadas de manejo e uso do solo e muito menos com a preservação da vegetação ou das matas ciliares. Vamos salvar nossos rios com a construção de cercas para a proteção das nascentes, impedindo o desmatamento clandestino, dando mais importância às voçorocas, evitando as enxurradas, construindo pequenas barragens e também tomando cuidado especial com as estradas vicinais. Gasta-se muito dinheiro com projetos de gabinetes e pouco ou quase nada na ajuda aos municípios que seriam os principais agentes de preservação.

Devemos evitar que um futuro presidente da República, num gesto demagógico, lance um programa com o título de “Por um Brasil sem Sede”. Que se crie ou festeje o Dia Nacional de Consciência da Água. Precisamos sofrer, pelo menos por três dias, para perceber a importância desse elemento no nosso dia-a-dia. Precisamos sentir o cheiro da latrina sem descarga que estamos, irresponsavelmente, preparando para as futuras gerações.

O autor, João Rafael Picardi Neto, é jornalista e articulista

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