Residíamos em São Paulo em 1932. Trabalhávamos em uma lojinha de roupas infantis, na rua General Carneiro, bem na frente do então Mercado Municipal, ladeando a rua 25 de Março. Éramos entregadores de mercadorias e, por isso, circulando, diariamente, no horário comercial, em muitas ruas, conhecíamos um bocado da histórica cidade. E fomos testemunhas de alguma coisa da memorável Revolução Constitucionalista, figurando no rol os bombardeios aéreos de edificações militares e a passagem do honroso cortejo fúnebre de Alberto Santos Dumont, que residia na avenida Paulista e que, rumo ao Rio de Janeiro, onde seria sepultado, transitou pela General Carneiro, na direção da conhecida Estação do Norte.
Ainda não possuía a Capital as avenidas Ipiranga, 9 de Julho e Angélica. Nem mesmo o Estádio do Pacaembu. A chefia do governo funcionava em palácio dos Campos Elíseos, pois Francisco Matarazzo ainda não havia erguido o do Morumbi. O Campo de Marte, em Santana, servia ao transporte aeroviário, não havendo os aeroportos de Guarulhos. A quase totalidade dos bairros era servida por bondes, “camarões”, poucos ônibus e alguns trens suburbanos. Era, então, uma cidade pacata e, conseqüentemente, silenciosa, diferente da de hoje, que, conforme ressalta a colega Rita de Cássia em interessante matéria, inserida domingo no JC, figura agora entre as mais barulhentas do mundo, a quarta no “ranking”, superada apenas por Tóquio, Nova York e São Francisco, com decibéis acima dos 50 recomendados pela Organização Mundial de Saúde.
Na matéria, Ritinha mostra a diferença existente entre o ruído da Paulicéia e o silêncio das cidades interioranas de hoje, o que nos faz lembrar o que sentíamos na Paulicéia daqueles tempos, 74 anos passados, induzindo-nos a admirar extraordinariamente a vida simples não só de Bauru como das nossas atuais vizinhanças, nas quais a segurança e a solidariedade atingem o máximo. Como elas diferem entre si, aquela ousadamente ruidosa, quebrando a monotonia do outro século, e estas ainda silenciosas em pleno 2004! Lá, a circulação de veículos barulhentos é o principal, enquanto no Interior há cidades nas quais os moradores - diz a querida jornalista - quase não ouvem businaços, que não substituídos por cantos de pássaros, enquanto crianças usam bicicletas e adultos o fazem a cavalo no seu pequeníssimo trânsito. Uma prefeitura esmera tanto do trato do seu público que lhe oferece gratuitamente café da manhã. Parabéns à colega lembrando tanta coisa boa e gostosa! É a nossa opinião.
O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC, delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado. “Despreze as cicatrizes e esqueça o inatingível e o desencanto. Faça de novo com a vida uma nova aliança, ilumine de amor os versos do seu coração e venha reconciliar-se com a esperança”.