Bairros

Intervenção estimula a percepção

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 3 min

de Artes da Universidade Estadual

Paulista (Unesp) e especialista

em arte moderna e

contemporânea.

“A intervenção urbana está

inserida dentro de um aspecto

mais amplo que se chama

arte conceitual. É quando

o artista abandona os suportes

e materiais tradicionais e

se apropria de outros. Existe

um leque de categorias e manifestações

dentro deste conceito”,

explica.

Um dos principais objetivos

das intervenções urbanas,

de acordo com Romão, é

aproximar a arte das pessoas

que vivem em determinada

sociedade. “É necessário

criar situações de contato

com o público para atingi-lo.

Em vez de esperar que a pessoa

vá a um museu, o artista

desloca sua manifestação artística

para situações nas

quais haverá confronto com

o público”, destaca.

A surpresa de encontrar

uma obra de arte no caminho

para o trabalho ou para a escola,

por exemplo, também

provoca um momento de

pausa e reflexão, em meio à

correria ou banalização do

dia-a-dia.

“Um momento de reflexão

e interrogação. Esse é o

papel da arte moderna - gerar

essa paradinha no cotidiano e

levar à reflexão”, expõe o

professor.

As intervenções tiveram

início em meados da década

de 60, em capitais como Nova

York, Paris e Berlim, a

partir da preocupação com a

deselitização da arte. “É romper

com o circuito especializado

e ir para as ruas. Começa

como uma forma de

oposição ao predomínio do

mercado de arte que começa

a existir no meio artístico.

Foi uma atitude de democratização

que começou na Europa

e nos Estados Unidos”,

afirma Romão.

Um dos artistas que se destacou

na década de 70 foi o

búlgaro Christo Javachef.

Ele ficou conhecido pela técnica

de fazer gigantescos embrulhos

de prédios, pontes e

pequenas ilhas, entre outras

coisas. No ano passado, empacotou

o parlamento alemão,

em Berlim, que passaria

por reformas.

No Brasil, as intervenções

começaram a aparecer

na década de 70. “O problema

é que no Brasil nunca tivemos

grandes projetos que

geraram grandes repercussões

devido ao custo alto. Para

fazer grandes intervenções,

é necessário mobilizar

recursos e pessoal e isso aqui

é mais difícil. Esse tipo de arte

acabou tendo seus principais

representantes nos Estados

Unidos e na Europa por

isso”, justifica.

O professor cita o pernabucano

Paulo Bruski como

um dos principais ícones das

intervenções urbanas no

País. “Ele está na Bienal, faz

isso há bastante tempo e fez

várias intervenções no Recife.

Mas acaba sendo pouco

conhecido no resto do País

por trabalhar no Nordeste”,

avalia.

Ele acredita que, no Brasil,

as intervenções que ganharam

mais espaço foram

os grafites. “Os grafites são

pinturas, obras bem elaboradas,

com autorização e assinadas.

Até onde eu saiba, a intervenção

não tem esse caráter

de coisa proibida. As grandes

intervenções são divulgadas

pela mídia e identificadas”,

argumenta.

Na opinião de Romão, as

intervenções urbanas ainda

aparecem de maneira tímida

em Bauru. Ele destaca a pedra

pintada na avenida Nações

Unidas que ficou conhecida

como joaninha. “É uma

intervenção bem-humorada”,

diz.

As iniciativas das colagens

também são avaliadas como

positivas pelo professor.

Tem bastante no câmpus da

Unesp. Eu não sei porque a

pessoa não assina, mas são trabalhos

interessantes do ponto

de vista artístico, mesmo sendo

feitos com materiais simples”,

avalia.

“É uma forma de intervenção

pública interessante

porque não atrapalha a vida

de ninguém e ao mesmo

tempo chama a atenção das

pessoas. De alguma forma,

impressiona. Para quem está

passando, com certeza a

obra de arte vai servir para

um momento de reflexão”,

acrescenta Romão.

Comentários

Comentários