As mais recentes intervenções
urbanas de Bauru estão
sendo protagonizadas por
estudantes da Universidade
Estadual Paulista (Unesp).
Grande parte deles cursa educação
artística.
O cenário observado na região
central do câmpus local
da Unesp, repleto de pinturas
e colagens, foi transferido
em intensidade menor para o
Centro da cidade - principalmente
para as avenidas Duque
de Caxias, Nações Unidas
e Rodrigues Alves.
Os universitários espalham
pelos muros painéis
pintados, de diversos tamanhos
e suportes também variados
- jornal, sulfite, entre
outros. Geralmente, são escolhidos
locais considerados estratégicos
pela grande
movimentação
de pessoas.
Os artistas, que
preferem o anonimato,
afirmam que o
que fazem é street
art, ou arte de rua.
Em Bauru, esse tipo
de trabalho começou
timidamente há
cerca de três anos,
mas intensificou-se
no último ano. Alguns
dos artistas já
faziam intervenções
nas cidades em que
moravam antes de
Bauru.
“Eu gosto de
preencher espaços
de cimento e concreto
com arte. De certa
forma, é embelezar
a cidade. Ainda que
o intuito não seja
apenas embelezar,
mas mudar aquele
concretão”, diz Bianca
(nome fictício),
aluna de Educação
Artística da Unesp.
Ela conta que ingressou
no mundo
das intervenções urbanas
antes de entrar
na faculdade,
quando ainda morava
em Piraju. “Não
foram muito bem recebidas.
Arrancaram tudo.
Não durou nem dois dias”,
conta.
Mas ela não desistiu. “As
pessoas sempre andam pelos
mesmos locais e nunca percebem
as coisas. Um dia, ela se
depara com um desenho naquele
mesmo local que estimula
sua percepção. Por isso
é legal fazer arte na rua. Causa
um estranhamento”, expõe.
Marcos (nome fictício),
outro autor das colagens espalhadas
pela cidade, revela
que tem a intensão de provocar
reflexão nas pessoas que
passam pelos locais das intervenções.
“Tem uma reflexão
dentro da obra. O que eu faço,
eu faço para provocar
uma reflexão, para fazer pensar
mesmo”, destaca.
Geralmente, as colagens
são feitas em muros e paredes
de locais públicos. Como
os autores não pedem autorização
a ninguém, afirmam
que preferem não intervir em
locais privados. “Não colocamos
em casas, por exemplo.
Tem muita cola e a pessoa
tem o direito de tirar, se ela
quiser”, explica Bianca.
O universitário Berê (nome
fictício) conta que sua relação
com as intervenções é
de diversão. “A minha idéia
é fazer na rua por diversão.
Andar na cidade e encontrar
um lazer. E, além disso, criar
um clima de suspense e ironia
na cidade”, revela.
“Eu não faço isso para embelezar
a cidade, para mostrar
engajamento. Eu não pretendo
isso”, acrescenta o artista.
Apesar da afirmação, ele
enfatiza que gostaria de ganhar
dinheiro fazendo intervenções
em Bauru. “Seria
muito legal se alguém quisesse
pagar a gente para fazer isso
em outdoors, por exemplo.
Milhões de outdoors na
cidade”, salienta.
Influenciados por projetos
de intervenções urbanas
como o Arte/Cidade - criado
em São Paulo em 1994 -, os
artistas acreditam que seus
trabalhos são bem aceitos pela
sociedade.
“Nossa geração vive esse
boom de legalidade da arte
pública. Temos o Arte/Cidade
e a acessibilidade do grafite,
por exemplo. Não temos
repressão contra essas coisas.
Antes, não tinha muito
espaço para arte pública. Arte
pública era uma grande escultura
numa praça. Mas esse
conceito mudou e está
muito mais fácil fazer intervenção”,
frisa Berê.
Eventualmente, os estudantes
passam de colagens
artísticas para outros tipos
de intervenções. Uma delas
foi feita em um ponto de ônibus
que ganhou uma espécie
de varal com revistas penduradas.
Em outra ocasião, a universitária
Rosa (nome fictício)
nadou no lago do Parque
Vitória Régia para protestar
contra a falta de áreas de lazer
na cidade. “A arquitetura
do Parque Vitória Régia é
monumental, para ser observada
e só. Não oferece nenhum
tipo de conforto. É só
cartão postal mesmo”, diz.