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A advertência dos nanicos


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A imprensa nacional promove o rescaldo do processo eleitoral. Um pouco antes da hora. O segundo turno corre solto nas principais cidades do País. Avaliações provisórias são possíveis, mas o segundo turno ainda pode surpreender muita gente. Colunistas mais precipitados, marcados por paixões eleitorais, deram ênfase à polarização do pleito entre o PSDB e o PT. Cantaram a quatro ventos que o País deixava a barbárie e marchava para a civilização. Aconteceria milagrosamente entre nós a experiência histórica da democracia americana com o embate entre republicanos e democratas.

Dúvidas surgiram quando Tasso Jereissati (PSDB-Ceará) chegou ao Senado, logo após o primeiro turno do pleito, esbravejando contra os partidos nanicos. “Esses partidos conseguem eleger vereadores ou deputados com pouquíssimos votos, usam seu acesso ao horário gratuito para alugar o tempo a outros partidos e põem candidatos laranjas a serviço deste ou daquele para fazer o serviço sujo contra adversários. Criam uma situação de embuste eleitoral”. Tem toda razão o senador tucano. São partidos sem legitimidade, usados como legenda de aluguel, que deformam a representação dos legislativos. Acusa malandros de abusarem das frestas e da fluidez da legislação eleitoral. Explode de razão. Tem mais razão ainda de clamar por uma reforma eleitoral. Parece que reforma eleitoral não interessou até agora nem a gregos nem a troianos.O Congresso inteiro está na moita...

Tasso esquece da principal. Muita gente fugiu da polarização dos partidos tradicionais. A situação, liderada pelo PT com PTB, PL, PSB e PC do B, está forte. Mas não está agradando nada nem a ninguém pelo país afora. A intimidade do PSDB com o PFL fortaleceu-se nas eleições. Mas, também, não está mais com a bola toda. É preciso saber ler os números. Os pequenos partidos cresceram por todo os cantos do País. Sintoma de que nem situação e nem oposição estão agradando tanto quanto pensam seus líderes. Houve pulverização acentuada do poder. Os partidos nacionais têm sido moídos pelas frouxas regras democráticas da república. Só em São Paulo, juntos o PT e o PSDB tiveram a maioria absoluta dos votos (57%) em nenhuma outra unidade federativa os dois chegaram à metade do eleitorado.

Lembremos da época pós constituinte. Não estou pondo olho gordo no processo de consolidação da nossa vida democrática. Lembremos que o processo constituinte foi marcado pela presença forte do PMDB, comandado por Ulysses Guimarães. Associaram-se os moderados de todo tipo. Sobrava o PDS conciliador. Brotava o PFL do PDS. Da esquerda do PMDB, nascia o PSDB. O PT estava presente, mas nada apitava. Era o partido do contra. O “Centrão” dominou o processo constituinte. A República, recriada nos seus fundamentos democráticos, partiu, com novas e frouxas regras eleitorais, finalmente, para as eleições gerais amplamente democráticas. Um aventureiro da elite nordestina levou o País de roldão. O País gritou um basta a tanta conciliação. As lideranças tradicionais foram fritadas. Lógica inexorável da política nacional. A opinião pública devora com avidez seus líderes.

Alguns insistiram que os pleitos municipais foram pouco afetados pelo debate nacional. O desgaste do governo Lula não teria interferido decisivamente no pleito. A retomada lenta do crescimento econômico não pode sequer ser explorado nas candidaturas petistas. Nos pleitos municipais teriam ocorrido escolhas centradas nos temas municipais. Não se pode exagerar na análise. Houve a presença nos pleitos, como um ruído de fundo, do desgaste do governo Lula. Este desgaste esteve sempre presente. Esteve associado ao desgaste eleitoral dos governos municipais que podem até ter predominado. O atual mandato foi um mandato cruel para os prefeitos. Pior. Grandes esperanças são tênues para os novos prefeitos. Mas as grandes lideranças dos grandes partidos sofreram mais que sovaco de aleijado.

O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

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