Politicando

'Intoxicação'


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Carlos Lacerda reunia as cinco circunstâncias que o Padre Vieira, no Sermão da Sexagésima, considerava num orador: a pessoa, a ciência, a matéria, o estilo e a voz. Em suas memórias, ele diz:

- Desde menino eu almoçava e jantava política. Ele se referia ao fato do avô, Sebastião Lacerda, ser Ministro do Supremo e o pai político. Não sabemos se houve, em Bauru, alguma família com três gerações exercendo a política ao mesmo tempo. Lacerda tinha essa vantagem, pois, na política, como em toda arte, o aprendizado precoce é essencial!

Representante máximo do conservadorismo, Lacerda foi, por muitos anos, o maior tribuno do Congresso. Após ter exercido o cargo de prefeito do Rio, ele se candidatou a governador do Estado contra Sérgio Magalhães, que representava as forças progressistas.

O jornal denominado “Última Hora”, de Samuel Wayner, fazia campanha aberta contra Lacerda com foco numa suposta doação de terreno na avenida Rio Branco, dele para seu filho Sérgio. Em campanha eleitoral, Lacerda foi à Faculdade de Medicina para um comício. Acredito que os colegas de turma Alvaro Pascoal e Celso Torres devem estar lembrados.

Armou-se o palanque no jardim interno, ao qual acorreu uma pequena multidão de alunos, funcionários e professores, dentre os quais Ivo Pitanguy, Feijó, Magalhães, Mota Maia, Leme Lopes, Hilton Gosling, verdadeiros monstros sagrados da Medicina carioca. Lá pelas tantas, o presidente do Diretório Acadêmico, Hugo Mantelato, eleito pelo nosso partido, Frente Moralizadora, interrompe Lacerda e pergunta:

- O que o sr tem a declarar sobre o terreno da avenida Rio Branco?

E Lacerda, na bucha:- Isso é uma intoxicação de última hora!!!

Todos riram e o nosso diretório virou alvo de gozação durante um bom tempo. Não foi à toa que Lacerda ganhou aquela eleição “com um pé nas costas”!

História contada por Rui Bertoti

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