Bairros

Discursos revelam várias Baurus

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 3 min

Embora haja pontos em comum nos discursos dos moradores, quando eles apontam deficiências da cidade e propõem soluções, há muitas divergências e os valores atribuídos a cada tipo de problema são diferentes.

Ou seja, cada morador enxerga a cidade de maneira distinta dos demais. Para a professora Lúcia Helena SantAgostinho, isso significa a existência de várias Baurus.

“A minha pesquisa visa mostrar que dentro de uma cidade existem várias cidades. A cidade é diferente para cada um dos moradores quando cada um deles fala e sugere melhorias para ela”, diz a pesquisadora, que é autora da tese de mestrado “Rumo ao Concreto”, professora aposentada da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e atual membro do corpo docente da Instituição Toledo de Ensino (ITE).

A Bauru de cada habitante é moldada por seu repertório. Ou seja, a representação da cidade para o morador muda de acordo com sua vivência e suas experiências na cidade. Podem interferir nesse processo o trabalho, a família, os trajetos percorridos diariamente, a escolaridade etc.

“São as identidades urbanas. Eu acho que junto com as variáveis sócio-políticoeconômicas existe o que eu chamo de práxis simbólica. É a dimensão informacional do cotidiano. Esse nível simbólico vem da percepção”, explica Lúcia Helena.

“Toda percepção já é interpretação da realidade porque ela é marcada pelo repertório do morador-usuário”, acrescenta a professora.

Para compreender a questão, Lúcia Helena afirma que é preciso delinear a cidade vivida pelo morador, e não a cidade feita pelo poder público. “Em vez de ter

a cidade única nos bairros, temos as cidades nos bairros. É a questão das representações vinculada à experiência concreta de cada um”, expõe.

Os discursos políticos de candidatos a prefeito, por exemplo, muitas vezes são parecidos entre candidatos de diferentes partidos e em eleições diferentes – mesmo depois de decorridos quatro anos. O tempo passa e têmse a impressão de que os candidatos estiveram congelados durante esse período e agora repetem as mesmas promessas.

Segundo a pesquisadora, os candidatos políticos geralmente utilizam a mesma visão da cidade, que é diferente da visão dos cidadãos comuns. “Eles acabam elegendo determinadas imagens que cristalizam na propaganda política o que a cidade é para eles”, observa.

Nas falas dos moradores entrevistados pelo JC nos Bairros, que moram em regiões distintas da cidade, eles revelam diferentes relações com Bauru e com os bairros em que moram, através das diferentes reivindicações e propostas para melhorar o município.

“A questão é de repertório - que vai do DNA até a última fala da pessoa. Quando você pergunta alguma coisa para ela sobre a cidade, ela entra em choque e tem de perceber a cidade de novo. Para cada um, a representação da cidade muda à medida em que você muda sua vivência na cidade. É o choque repertorial”, enfatiza Lúcia Helena.

“Essa preocupação tem tudo a ver com a globalização. É como se cada um pensasse igual. E não é assim. Não é porque eles assistem aos mesmos canais de TV que eles têm de ter a mesma visão da cidade. A realidade nega a homogeneização das visões sobre um mesmo objeto”, acrescenta a pesquisadora.

Em muitos bairros, acabam sendo criadas o que a professora chama de comunidades de sentido. Ou seja, são comunidades em que as pessoas pensam de forma parecida. “Eles criam hábitos interpretativos de convergência de usos da cidade, de modo que se organizam em comunidades de sentido”, diz.

Essa característica, segundo Lúcia Helena, é mais marcante em bairros de ocupação espontânea, que geralmente são antigos, como o Jardim Bela Vista. Nestes casos, os moradores se identificam com o local em que moram.

“Eles não só pensam de forma semelhante, mas desejam um destino comum para o bairro. Portanto, existe mais noção de público do que de privado”, frisa.

Já nos bairros de ocupação induzida, como núcleos habitacionais ou bairros que cresceram através de marketing imobiliário - como alguns da região sul da cidade -, as pessoas não se conheciam até então e ocorre um choque de repertórios.

“Eles ficam muito mais individualistas e, no início, não compartilham da mesma opinião. O pessoal só percebe o bairro como local de moradia, e não como local de existência”, explica.

Comentários

Comentários