A jornalista Neide Carlos, 30 anos, gostaria de ser cremada quando morrer e comenta que sua família já está avisada do desejo. Assim como ela, são muitas as pessoas que têm a mesma intenção, porém o procedimento ainda não é comum em Bauru, justamente pela inexistência de um crematório na cidade. Os únicos serviços existentes no Estado estão localizados na Capital e na cidade de Santos.
“Acho que dificilmente terei esse desejo atendido, até pela dificuldade. Mas gostaria de doar meus órgãos e que o corpo fosse cremado depois”, diz Neide.
Ela justifica sua escolha ao afirmar que não gostaria de ter um túmulo para ser visitado por amigos e familiares. “Acho mórbida essa coisa de ser enterrado e ter um cantinho seu, onde as pessoas vão para chorar por você. Para mim, isso não faz sentido. Se eu fosse cremada, também não gostaria que minhas cinzas fossem guardadas, porque seria a mesma coisa de ter um túmulo. Prefiro que joguem minhas cinzas no mar”, comenta.
Segundo Edson Simões, que é proprietário de uma funerária de Bauru, a cremação não é um procedimento muito procurado na região por uma questão cultural. “As pessoas ainda preferem ser sepultadas. A tradição é de se fazer o velório e o cortejo seguir para o cemitério. Algumas famílias têm resistência até mesmo ao cemitério-jardim, porque gostariam de fazer um túmulo, da maneira tradicional”, relata.
Simões estima que, anualmente, apenas cerca de dez famílias da cidade procurem os procedimentos para cremação de um ente falecido.
Atestado e menor preço
Fernando Colnagui, que também é proprietário de uma funerária bauruense, explica que são necessárias as assinaturas de dois médicos para atestar o óbito da pessoa que será cremada. “Com o atestado, fazemos o contato com o crematório de São Paulo e levamos o corpo. É necessário que pelo menos um membro da família acompanhe o processo”, ressalta.
Após o velório, a família pode optar ainda pela realização de uma pequena cerimônia antes da urna ser encaminhada para os fornos. No entanto, não é permitido assistir à colocação do corpo nas câmaras de cremação. A família pode retirar as cinzas de seu ente falecido em uma urna, que é entregue cinco dias depois do procedimento.
Em São Paulo, o Crematório Municipal, localizado na Vila Alpina, realiza cerca de 300 cremações de corpos por mês e cobra R$ 337,00 pelo serviço. As funerárias locais se encarregam do transporte do corpo e o valor é variável de acordo com a empresa. Em média, a família gasta cerca de R$ 800,00 com o translado da urna até a Capital.
Em alguns casos, o procedimento de cremação pode ficar até mais barato do que um funeral tradicional. Segundo Simões, o custo de um velório, incluindo a aquisição da urna, não é menor do que R$ 400,00. “Algumas pessoas fazem funerais mais simples, mas um velório de padrão médio pode chegar a R$ 2 mil”, situa.
Cinerário
As pessoas que atendem o desejo de seus entes falecidos e optam pela cremação terão, a partir do próximo ano, um local para o armazenamento das urnas com as cinzas. O cemitério vertical, localizado na Vila Cardia, deve inaugurar seu cinerário em janeiro.
O proprietário do cemitério, Adriano Sassi, comenta que já oferece o serviço do transporte do corpo para a cremação na Capital e agora vai proporcionar o depósito das cinzas no local.
“Temos um cemitério de primeiro mundo e queremos atender a todas as famílias que nos procuram. Teremos esse serviço no próximo ano e já oferecemos as urnas, que foram confeccionadas por um artista plástico de Bauru”, conclui.
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Religiões aceitam?
Enquanto algumas religiões e filosofias não vêem como problema a decisão pela cremação dos mortos, outras, como o budismo, mantêm o procedimento como tradição. De acordo com Massaru Ogino, relações públicas da Associação Religiosa Nambei Honganji de Bauru, no Japão a cremação é um processo natural após a morte.
“Mas como o Brasil não tem crematórios em todas as cidades, poucas pessoas que seguem o budismo seguem essa tradição, até mesmo pelo preço. Elas acabam fazendo o sepultamento tradicional”, relata.
Segundo Ogino, após a cremação, os budistas constróem um local especial para guardar a urna com as cinzas de seus entes, chamado de ossário. “Ou as pessoas fazem isso do lado de fora de casa ou guardam as cinzas nos ossários da igreja que a pessoa freqüentava”, conta.
Ele observa que a tradição da cremação não veio necessariamente da religião, mas da falta de espaço para grandes cemitérios no Japão.
De acordo com o monsenhor Almir José Cogiola, da paróquia Santa Rita de Cássia, não consta na Bíblia qualquer indicação negativa quanto ao procedimento. “O Cristo diz que ao pó todos hão de retornar e isso pode significar as cinzas também. A cremação não impede que, na ressurreição dos mortos, tenhamos o corpo todo glorificado por Deus”, explica.
O pastor Nilton Baro, presidente do Conselho dos Pastores Evangélicos de Bauru, também não vê qualquer problema na cremação. “Essa é uma questão pessoal, mas a Bíblia não traz nada contra a cremação. A palavra só diz que o corpo volta ao pó e o Espírito vai a Deus que o deu”, conclui.