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Entrevista da semana: 'Bauru pode ser elo do Mercosul'

Sérgio Pais
| Tempo de leitura: 9 min

A política econômica brasileira continua errante, mas mesmo assim o Interior do Estado de São Paulo, Bauru incluída, tem à sua disposição um cenário bastante favorável para dar um grande salto rumo ao crescimento. A avaliação é do jornalista econômico Luís Nassif, que na última sexta-feira proferiu palestra em Bauru para empresários. Na ocasião, o jornalista expôs seus estudos que tentam entender por que o Brasil fica permanentemente refém de políticas econômicas que impedem o crescimento. Nassif compara o cenário vivido na monarquia e na Velha República com os dias atuais para mostrar que grupos de poder ligados ao grande capital se apropriam da política econômica para subordiná-la a seus interesses. Mas ele lembra que o País vive um momento similar ao que ocorreu nos anos 20, com a desmistificação deste tipo de política econômica e com a opinião pública começando a perceber o jogo armado que impede o crescimento. Também demonstrou que, com os novos conceitos de trabalho em rede, o Interior passa a ter um potencial muito grande para atrair empresas e investimentos. E Bauru, de coração de São Paulo, pode passar a ser o coração da América do Sul. Diretor da agência Dinheiro Vivo, colunista do jornal Folha de S.Paulo e âncora do programa “Projeto Brasil, da TV Cultura, Luís Nassif conversou com JC antes da palestra.

JC - Como o senhor vê as perspectivas econômicas do Interior paulista para o próximo ano?

Nassif - Esta região tem uma situação privilegiada, tanto diante do estrangulamento das metrópoles, quanto na comparação com o resto do País na questão de infra-estrutura. O Interior paulista, por outro lado, tem uma infra-estrutura boa, de estradas, telecomunicações, etc. Além disso, há a questão da integração do País com o Centro-Oeste e a chegada do gasoduto. Tudo isso confere a esta região uma grande chance para ela se tornar um grande pólo de atração para a área de serviços. No médio prazo, vejo condições de o Interior paulista ser a região mais promissora do Estado de São Paulo.

JC - E as perspectivas para Bauru, especificamente?

Nassif - A ampliação desta fronteira com o Centro-Oeste e, mais à frente, a integração com a América do Sul, juntamente com os avanços da logística, vão favorecer cada vez mais as perspectivas para os municípios médios com boa infra-estrutura, como é o caso de Bauru.

JC - O que seria esta integração com o continente?

Nassif - Existe um projeto, que começa agora a ser discutido de forma mais detalhada e que em dez anos deve estar pronto, de constituição de sete centros de integração na América do Sul. E Bauru estaria num destes centros, que engloba o Centro-Oeste, partes da Argentina, Paraguai e a Bolívia. E no momento em que estiver consolidado sua integração física, com rodovias, ferrovias, linhas de transmissão elétrica, comunicações, este centro tem tudo para ter um dinamismo muito grande. Então, ao invés de ser o coração de São Paulo, esta região poderá ser o pulmão do Brasil para esta integração com a América do Sul.

JC - O que a cidade deve fazer para que isso se torne realidade?

Nassif - É preciso que se comece a discutir e debater já o futuro da região e da cidade. A pergunta fundamental que a cidade e a região precisam responder é a seguinte: O que eu quero ser quando crescer. Enfim, qual é a nossa vocação. E a imprensa tem uma responsabilidade fundamental em promover este debate.

JC - Especificamente para a região, o senhor vê alguma vocação mais delineada?

Nassif - O agronegócio é uma tendência relevante. Mas cabe a cada cidade se organizar e definir o que ela quer ser e concentrar esforços em buscar o que ela definiu para si mesma. Enfim, as condições estão dadas, mas Bauru precisa definir o seu “plano de vôo”.

JC - O ano de 2005 é o momento de investir para o empresário do Interior?

Nassif - Cada caso é um caso, mas com as inovações tecnológicas abriu-se um espaço muito grande para a inovação. Mas o empresário deve estar ligado a um plano de vôo muito consistente, sem nunca se descuidar do caixa. E, atualmente, muito mais que em qualquer outra época, existem condições favoráveis àqueles empresários que quiserem montar estratégias criativas.

JC- O senhor acredita que os Arranjos Produtivos Locais (APLs), os chamados “clusters”, podem ser um bom caminho para as empresas do Interior?

Nassif - Sim, mas desde que sejam bem feitos. A proposta do APLS é reunir várias pequenas empresas de uma cidade, junto à prefeitura e outras forças, visando montar projetos para exportar e vender para outros Estados. A Secretaria de Ciência e Tecnologia de São Paulo sustenta que montou 30 arranjos produtivos. Não montou! Reunir um conjunto de empresários, fazer uma solenidade e assinar um documento não é montar um arranjo produtivo. Mas é um caminho fantástico.

JC - O senhor acredita nas perspectivas positivas para o Interior paulista, a despeito de eventuais equívocos na política macroeconômica?

Nassif - Apesar de todos os erros da política econômica dos últimos 20 anos, o País teve um processo de modernização extraordinário. Neste período, o País aprendeu conceitos de gestão, modernização e inovação tecnológica. Até o câmbio, que se de um lado jogou o País numa recessão, de outro permitiu a importação de equipamentos e uma renovação importante do parque produtivo. A política econômica afeta o País como um todo, mas há setores que conseguem se destacar, mesmo diante deste cenário. E setores que já são um pólo dinâmico, como o Interior de São Paulo, tendem a continuar crescendo, apesar da política econômica.

JC - E a política econômica do governo Lula está no caminho certo?

Nassif - Não.

JC - Em que ponto principalmente ela está equivocada ou ainda patina?

Nassif - Numa comparação com o futebol, aquele técnico que traça mil táticas ou estratégias, ele tem que responder a uma questão: Isso termina em gols? E terminar em gol na economia significa criar-se um modelo capaz de permitir o País crescer.

JC - Qual a base deste modelo?

Nassif - Ele é baseado numa taxa de juros razoável, numa carga tributária razoável e investimentos em saúde, educação e tecnologia. O modelo que ele herdou do governo FHC, e que ele piorou, é um modelo em que Banco Central define as taxas de juros sem base técnica, ou seja, sem levar em conta qualquer variável, esta taxa de juro elevada provoca um aumento na dívida pública muito grande, fato que obriga o governo a aumentar os impostos e cortar os investimentos. Todo este conjunto de fatores não garante uma economia sustentável.

JC - Mas os principais indicadores econômicos não apontam para o início de uma recuperação?

Nassif - Alguns momentos de recuperação da economia, ocorrido este ano e em algumas fases do ano passado, foram exclusivamente fruto da conjuntura internacional. O mundo inteiro cresceu neste dois anos. O detalhe é que o Brasil cresceu abaixo da média da economia mundial, e abaixo também da média dos chamados países emergentes.

JC - Então as ações da equipe econômica não têm qualquer mérito?

Nassif - O único mérito do governo Lula é que, como ele não sabia como mudar, ele não mudou o que já existia. E o fato de não ter mudado já é melhor do que ter mudado de forma errada. Ou seja, ele persistiu no erro, mas sem desorganizar a economia. Pior do que deixar como está seria se ele quisesse fazer mudanças voluntaristas, e isso ele não fez. Seu mérito foi apenas não adotar uma política econômica temerária. O resultado é que o Brasil não encontrou seu caminho e está ficando para trás a cada dia que passa.

JC - Você criticou a atuação do BC na definição da taxa. A justificativa do Copom (Comitê de Política Monetária) de controle da inflação é furada?

Nassif - A inflação se tornou álibi. O BC disse que se elevar a taxa de juro a inflação não sobe. O que garante que eles estão certos nisso? É como na medicina, onde o todo médico sabe que uma infecção se combate com antibiótico. O bom médico é aquele que sabe dosar o antibiótico, que sabe o momento de diminuir a medicação quando o paciente começa a melhorar, até porque o excesso de antibiótico acarreta problemas sérios ao organismo. O que o Banco Central tem é um bando de amadores recém-formados, que acreditam que o bom médico é aquele que receita antibiótico e que, se a receita for em dobro, ele será duas vezes mais um bom médico.

JC - O (Antônio) Palocci, então, não é um bom médico?

Nassif - Ele não é um bom médico porque não sabe dosar a quantidade de remédio necessária e só se fixa em um aspecto da economia. Aí temos que conviver com aquele clichê: “Se o BC não aumentar os juros a inflação, volta”. Isso é mentira!

JC - Por quê?

Nassif - Porque o que caracteriza a economia é uma situação de equilíbrio. Portanto, a inflação não vai voltar quando estiver tudo equilibrado. Concentrando o tema apenas num aspecto, que é juro em cima de preço, sendo que parte da pressão vem de tarifas e contratos que não têm nada a ver com juros, cria-se um desequilíbrio permanente que impede o País de crescer.

JC - O arrocho nas contas não é uma virtude?

Nassif - O senso comum neste governo é que a capacidade de economizar é uma virtude e daí surge o superávit fiscal. Mas é o mesmo que uma pessoas economizasse cortando escola dos filhos, cortando plano de saúde, etc. Isso não é economia. Economizar é você fazer o mesmo com o mesmo dinheiro.

JC - A questão do petróleo pode afetar o Brasil?

Nassif - A cotação elevada do petróleo afeta a economia mundial como um todo, que tende a crescer menos. Se antes o Brasil já não conseguia acompanhar o ritmo, se contentando com estas taxas como se fosse um milagre do Banco Central, imagina quando o mundo começar a crescer menos. Não acredito que seja um cataclismo, mas este pequeno crescimento brasileiro que o governo chama de espetáculo vai ficar menor.

JC - Apesar deste cenário, o senhor tem alguma perspectiva otimista para 2005?

Nassif - O País conta com alguns pontos positivos, como a diversificação da balança comercial - apesar do câmbio baixo atrapalhar um pouco -, a descoberta do mercado externo pelos pequenos empresários, além de um conjunto de novos paradigmas que surgiram nos anos 80 e 90 e que agora começam a amadurecer, como os próprios APLs já citados.

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