Diversos casais de Bauru e região interessados em escolher o sexo de seus filhos vêm procurando com mais freqüência os profissionais e clínicas que realizam reprodução assistida, especialmente depois que essa possibilidade ganhou publicidade maciça na mídia. No entanto, o processo da sexagem, nome dado à técnica, é condenado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pode ser utilizado somente para prevenir doenças genéticas.
O urologista Aguinaldo Nardi, presidente da seção São Paulo da Sociedade Brasileira de Urologia, conta que foi procurado por muitos casais nas últimas semanas, principalmente por conta de uma matéria sobre o assunto na revista Veja, em setembro. “A procura foi muito grande, mas eu tento orientar todos os casais da mesma maneira. Não há ninguém que saia daqui insatisfeito por não poder fazer a escolha do sexo do bebê. Isso toca na integridade do paciente e é um assunto muito sério”, destaca.
A curiosidade pelo procedimento também aumentou na clínica do urologista Carlos Alberto Monte Gobbo. “A sexagem significa selecionar os embriões de acordo com o sexo. Existe uma tendência de casais procurarem os serviços de reprodução humana porque desejam ter especificamente um menino ou uma menina, mas essa prática é ilícita no exercício profissional médico atualmente”, afirma.
De acordo com Gobbo, a sexagem é aceita apenas quando há um problema genético relacionado ao sexo, ou seja, quando a doença é acarretada pela presença de cromossomos X (feminino) ou Y (masculino). Um dos exemplos é a hemofilia, que tem prevalência maior no sexo masculino.
“Se você tem uma família notadamente hemofílica, é possível optar pela transferência apenas de embriões do sexo feminino. Nesse caso, se justifica a sexagem, pois a doença pode ser evitada ou ter menor impacto. Mas o método não pode ser utilizado apenas para atender a vontade do casal”, aponta.
O processo da sexagem pode ser iniciado ainda na fase pré-embrionária, com a separação e seleção dos espermatozóides que carregam os cromossomos X dos que têm os cromossomos Y. A seleção é feita por centrifugação e apenas os espermatozóides desejados são utilizados para a fecundação dos óvulos.
No terceiro dia após a fecundação, com os embriões já formados, é retirada uma célula para análise. Segundo Gobbo, esse procedimento foi desenvolvido para detecção de possíveis genes defeituosos ou doenças congênitas.
“Hoje temos dezenas, centenas de sondas que são utilizadas para descobrir doenças cromossômicas que aquele embrião pode vir a ter. A descoberta do sexo é apenas uma observação da célula, mas não foi para isso que o processo foi evoluído”, reitera.
Posições distintas
Reportagens como a publicada pela revista apresentaram profissionais que realizam o procedimento sem qualquer dilema ético, mais, que defendem com todas as letras o “direito” da família em escolher o sexo de seus próximos filhos. Na opinião de Gobbo, as questões éticas são inerentes ao tempo e podem mudar com o passar dos anos, por conta da evolução dos costumes e da própria sociedade.
“Hoje, essa discussão se o casal tem direito de escolher o sexo é legítima e atual. Não cabe a nós dizer se é criminoso ou não, mas não existe um respaldo para a escolha. Tudo depende da legislação que é vigente”, diz.
Ele ressalta que não faria a sexagem para um casal que não tem filhos e deseja escolher o sexo de apenas um bebê. “Em sociedades machistas, como a China, isso poderia ser um problema sério. Mas se houvesse a legislação, não vejo porque as técnicas não poderiam ser utilizadas nos casais que desejam ter outros filhos para equilibrar sua família”, indica.
Nardi, por outro lado, mostra-se contra o procedimento para atender apenas ao desejo do casal. “Do ponto de vista da escolha do sexo pela escolha, sou contrário e não faço, mesmo que a pessoa peça. Não concordo com essa expressão ‘equilíbrio familiar’, pois não cabe ao médico atuar acima do limite que nos é imposto. Nosso parâmetro é ajudar o casal a ter filhos e por isso existe a reprodução assistida, mas não concordo em ir contra as leis da natureza”, conclui.