Economia & Negócios

Grupo aposta em empresa comunitária

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 6 min

Depois de participar de uma palestra viabilizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) em 1996, um grupo de aproximadamente 200 profissionais das mais diversas áreas de atuação decidiu tornar-se investidor.

Capitalizando mensalmente recursos e estudando as melhores alternativas do mercado, os participantes montaram em 1999 uma escola de educação infantil e ensino fundamental, hoje avaliada em mais de R$ 1 milhão. Eles constituíram o chamado modelo de empresa de participação comunitária (EPC), que teve sua primeira experiência no Brasil em 1988, no município de Umuarama (PR).

A EPC é uma holding de investimentos constituída juridicamente como Sociedade Anônima de Capital Fechado (S/A). Os investidores participam da administração dos negócios e conciliam os recursos capitalizados com oportunidades de investimentos em diversos setores.

Nessa cultura empresarial, os ganhos ocorrem a médio e longo prazo, portanto o perfil do investidor não deve ser de uma pessoa que espera retorno imediato.

“No início, cada um de nós investiu dez parcelas no valor de R$ 50,00 a R$ 250,00 por mês. Depois de dez meses formou-se o capital e montou-se a escola”, explica um dos diretores da EPC Ives Pedro Rossi.

“O valor de investimento não precisa ser substancial. Mas valores pequenos, com várias pessoas participando, formam um capital que dá para montar um negócio e criar empregos”, completa o diretor Marcos Sérgio Cesquini.

Antes de investir no ramo da educação, o grupo realizou estudos e pesquisas de mercado para a aplicação do dinheiro. Hoje, a escola, que funciona próximo ao Parque das Camélias, conta com 215 alunos e 30 funcionários.

O gerenciamento da empresa ocorre por meio de uma diretoria executiva e um conselho administrativo. Com o capital que vem sendo gerado pela escola, o grupo já pensa em investir em outros negócios.

“Nós estamos estudando”, diz Cesquini, que guarda a informação sobre o próximo ramo de investimentos a sete chaves.

Para Rossi, esse modelo de negócio é uma boa alternativa para os pequenos investidores. Por meio de ações coletivas, ele explica que os participantes buscam vantagens mútuas.

“Esse tipo de negócio une forças. Para uma pessoa sozinha montar uma escola como a nossa, que hoje tem capital superior a R$ 1 milhão, é difícil”, diz o diretor, destacando que atualmente cada acionista continua investindo na empresa, de acordo com suas possibilidades financeiras.

Segundo Rossi, a escola atualmente já está oferecendo lucro, entretanto, todo o dinheiro gerado pelo negócio tem sido reinvestido na própria empresa. “Ninguém está retirando lucro hoje em espécie, mas está reinvestindo no negócio”, conta.

O retorno dos recursos aplicados só ocorre após a consolidação do negócio. A distribuição dos dividendos é realizada proporcionalmente ao número de ações que cada investidor possuir.

Na EPC, as principais decisões e políticas da empresa são decididas pelos conselheiros, ou pelos acionistas em assembléia. A diretoria é responsável por executar as estratégias definidas.

Mal-sucedida

O grupo de Bauru que hoje administra a escola próximo ao Parque das Camélias teve uma experiência bem-sucedida. Mas vários são os casos de insucesso no modelo de empresa de participação comunitária no Brasil, de acordo com o gerente regional do Sebrae, Milton Aparecido Debiaze.

Um dos exemplos ocorreu em Bauru, envolvendo uma EPC criada em 1997 com a participação de 200 acionistas. Eles investiram no setor de seguros e construção civil, mas hoje a empresa está sendo liquidada. “Nós estamos em fase de encerramento”, afirma Petrônio de Jesus, presidente do conselho administrativo.

Na avaliação dele, para que a EPC seja bem sucedida é necessário haver participação ativa dos investidores, o que não teria ocorrido no negócio do qual é acionista.

“Hoje nós temos 104 acionistas, mas na realidade o que funciona e está atuante é só o conselho de administração (formado por aproximadamente 20 pessoas)”, diz. “O pessoal parou de investir. Faltou colaboração”, completa o presidente do conselho, destacando que inicialmente cada participante investiu cerca de R$ 600,00 no negócio.

Apesar do insucesso, Jesus considera esse modelo de empresa promissor, desde que haja planejamento e envolvimento dos acionistas, inclusive com novos investimentos. “Se não houver pessoas que atuem no dia a dia, o negócio fracassa”, destaca.

Opinião semelhante compartilha Ouvídio Segantin, ex-diretor da empresa. Segundo ele, o modelo da empresa de participação comunitária exige mais do investidor do que a simples compra de ações.

“Numa empresa de participação comunitária, você além de comprar as ações, tem a obrigação moral de fomentar os negócios, participando das reuniões, dando idéias e ajudando a vender os produtos da empresa”, completa.

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Alternativa

O gerente regional do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) Milton Aparecido Debiaze explica que a empresa de participação comunitária (EPC) é um tipo de investimento associativo que representa uma alternativa para os investidores que não esperam retorno a curto prazo.

A primeira fase da empresa consiste na formação de uma holding onde se capitaliza dinheiro. Em seguida, são estudados os ramos onde o capital poderá ser aplicado, para gerar retorno financeiro no futuro.

“Ao invés de uma pessoa física pegar R$ 1 mil e investir na bolsa de valores, ela resolve investir num grupo de pessoas que está se organizando para gerar negócios no futuro e receber a longo prazo”, exemplifica.

O gerente regional afirma que o Sebrae apóia esse modelo de investimento, mas lembra que existem alguns riscos.

Segundo ele, várias iniciativas dessa natureza fracassaram no Brasil por falta de uma participação efetiva dos acionistas; pelo perfil heterogêneo e imediatista dos ivestidores - que esperavam retorno a curto prazo e divergiam sobre os rumos dos negócios; ou pela própria aplicação do capital em um ramo de atividade pouco promissor.

“É preciso conhecer muito bem o grupo e os negócios que ele está gerando. Porque se o grupo está investindo em negócios complicados no mercado, o retorno vai ser perigoso”, diz.

Na avaliação do gerente do Sebrae, para que a EPC apresente resultados é importante que o grupo seja coeso em seus objetivos, não espere retorno imediato e realize estudos e planejamento para investir o capital. O ideal é contar com uma assessoria técnica antes de fazer a escolha.

“Ela (a EPC) é uma boa idéia, a filosofia é interessante, e eu diria que ela é mais uma alternativa. O sucesso vai depender muito do grupo que a compõe”, conclui. “A tendência é que grupos menores, mais coesos e com clareza de objetivos, tenham muito mais chance de fazer virar os negócios”, diz o gerente regional.

Debiaze lembra que na década de 90 várias empresas de participação comunitária foram criadas no Estado de São Paulo. Na época, o modelo de investimento já era difundido no Sul do País, como uma alternativa para as pessoas capitalizarem recursos e abrir negócios.

Atualmente, segundo ele, esse tipo de investimento já não é uma tendência no mercado. “Veio a novidade, várias pessoas se envolveram na época, mas isso foi decrescendo com o tempo”, destaca.

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