Cultura

Artigo: 'Essa saudade do bafo e o hálito do alecrim'


| Tempo de leitura: 3 min

A frase refere-se às reminiscências de um dos mais conhecidos pintores brasileiros, Cícero Dias, que morreu recentemente. Ela relembrava o cheiro de sua casa grande num engenho pernambucano. Como todo ser humano, tinha altos e baixos, mas o bom humor não perdia nunca. Apesar do verniz parisiense, Cícero era supersticioso. Acho que eu também... Vivia contando histórias sobre o boto, aquele que engravidava as mulheres na região amazônica.

Essas lembranças surgiram a propósito de uma conversa recente com uma amiga. Ela falou-me de golfinhos, eu pensei no boto. Ambos pertencem a família dos delfinídeos. Por isso, o golfinho é conhecido, também, como delfim. Eles são extremamente inteligentes e vivem em família, como nós. As semelhanças não param aí.

O filhote golfinho dá um enorme trabalho à mãe. Nos primeiros tempos, além de amamentá-lo, a mamãe golfinho precisa levar seu bebê de vez em quando à superfície para respirar. Como os nossos filhos, eles tornam-se capazes de viver por seus próprios meios quando têm um tamanho respeitável.

O delfim é o animal alegórico da salvação, em virtude de antigas lendas que o considerava um generoso amigo do homem. O bom convívio foi atestado pelo fato ocorrido em 1956, em Opononi, uma cidade litorânea da Nova Zelândia. Uma fêmea de golfinho começou a freqüentar as praias do lugar e divertir os banhistas com suas estripulias.

Batizada de Opo, recebeu dos habitantes do lugar as maiores atenções e cuidados enquanto viveu. Para aqueles que visitaram a Disney com seus filhos, o espetáculo dos golfinhos em Sea World é inesquecível. Sua figura associa-se à outro símbolo da salvação e prudência: a âncora.

Tudo isso por que a conversa girou em torno das 25 pessoas pertencentes ao Clube dos Golfinhos e seu fundador e líder mor.

Reuniam-se com o objetivo de angariar fundos para ajudar instituições ou pessoas de uma forma desinteressada e quase anônima, dando saques e cortadas na miséria... neste mundo de profundas desigualdades sociais.

As cartas/relatório com as quais ele prestava contas ao grupo sobre os valores arrecadados e os gastos, são de um humor fino, confirmando sua origem aristocrática, fazendo jus ao mesmo título que os herdeiros dos soberanos franceses usavam: delfim.

Se Golfão estivesse escrevendo esta crônica, com certeza não falaria de saudade e sim de política, pois estava antenado com os acontecimentos do momento. Provavelmente estaria colocando uma nota musical de intensa vibração na atmosfera, ecoando no clima eleitoral tenso dos últimos dias e tentando colocar brios cívicos no nosso novo prefeito e seus auxiliares.

Dia destes, ouvi de um médico o seguinte comentário: artistas têm ligação com a consciência cósmica do universo, antecipando acontecimentos e vendo o não visível. Penso que o delfim do Clube dos Golfinhos possuía essa qualidade rara de ver além do permitido e, com habilidade, captou as entonações da vida ao seu redor, pressentindo seu vôo rumo ao desconhecido. Previu o futuro próximo, fazendo até um testamento verbal. Mas minha sensível amiga, embora escutando, não ouviu; olhando, não viu; que aquele encontro era uma despedida.

A autora, Rosa Bertoldi, é escritora e colaboradora do Ju Machado Escritório de Arte. Esta crônica é dedicada à memória de Ruben Coube.

Comentários

Comentários