A juventude bauruense continua sendo maltratada. O alerta é do Centro Regional de Registro e Atenção aos Maus-Tratos à Infância (Crami), órgão fundado em 1988 por iniciativa da Faculdade de Serviço Social da Instituição Toledo de Ensino (ITE) e atualmente mantido pela Fundação Toledo, que ontem divulgou seu balanço de ocorrências até setembro deste ano.
E as estatísticas revelam um resultado no mínimo “inquietante”, na avaliação de Ecléa Correa de Lacerda Silva, assistente social coordenadora do Crami. Isso porque, mesmo sendo um levantamento parcial deste ano, os números de casos de violência contra crianças e adolescentes já são cerca de 40% superiores aos de 2003.
Até setembro passado, o Crami registrou 227 notificações de maus-tratos, contra 163 ocorrências contabilizadas durante todo o ano de 2003. Também subiram proporcionalmente a origem da denúncia que gerou a notificação e a modalidade da violência praticada.
Ecléa Silva credita parte deste aumento como conseqüência natural da convivência cotidiana da juventude com a violência inerente à sociedade moderna, que cultiva a cultura histórica de recorrer à truculência como forma de resolver problemas domésticos.
Por outro lado, a assistente social também vê um componente positivo no levantamento. Para Silva, o crescimento no número de notificações pode indicar uma maior disposição das pessoas em denunciar casos de maus-tratos. “As pessoas estão se conscientizando da gravidade do problema e sentem-se mais à vontade para denunciar”, diz.
Ela acrescenta que este processo de conscientização leva a sociedade a perceber que o ambiente familiar pode não ser, necessariamente, um local seguro para as crianças. “Falar sobre os problemas das famílias sempre foi um tabu, que só agora começa a ser quebrado”, acredita.
Agressões variadas
O Crami destaca que situações de agressão física sempre preocupam, mas que a violência contra menores não se resume às surras e aos tabefes. Coações psicológicas (ameaças, humilhações e privações emocionais) e abuso sexual, por exemplo, são duas das modalidades de violência que tiveram variação até superior ao total de ocorrências. Pela estatística, a violência psicológica até setembro (108 casos) foi 66,6% maior que em 2003 (86 ocorrências). O abuso sexual já cresceu 40% só este ano (14 casos até agora, contra dez no ano passado).
Mas a modalidade mais recorrente de violência é a classificada como negligência, que abrange casos em que se configuram falhas dos pais na supervisão dos filhos, como cuidados médicos e dentários, atenção educacional e até higiênica, dentre outras. Este tipo de ocorrência teve aumento de 25,5% neste ano.
O Conselho Tutelar de Bauru também divulgou balanço parcial fechado até setembro mostrando que os casos de negligência são os mais preocupantes, com crescimento de 41% - 134 ocorrências neste ano, contra 95 em 2003.
O Crami atua na questão da violência contra menores com trabalhos socioeducativos e acompanhamento dos jovens agredidos e de suas famílias, enquanto o Conselho Tutelar, quando acionado, proporciona medidas de proteção a crianças e adolescentes em situação de risco.
Dependendo da situação, o Conselho Tutelar pode acionar os recursos da sociedade (através de entidades como o próprio Crami) ou até mesmo os de segurança pública (polícia). Em casos mais delicados, o Conselho Tutelar pode promover ainda, como último recurso, a retirada do jovem do ambiente que lhe proporcione risco - Bauru dispõe de um abrigo para crianças até 11 anos e 11 meses e quatro para adolescentes (12 anos a 17 anos e 11 meses), dois para garotos e dois para meninas.
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Silêncio perigoso
Tanto o Crami quanto o Conselho Tutelar admitem que os casos notificados não representam um quadro exato do drama que é a violência contra a juventude. A subnotificação, causada pelo receio da denúncia, é uma realidade admitida tanto por Ecléa Silva quanto pela presidente do conselho, Sandra Cristina Ferreira, que não sabe, no entanto, estimar o percentual dos casos não denunciados.
“Mesmo com a garantia da preservação do anonimato, muitas pessoas ainda deixam de fazer as denúncias de maus tratos”, diz Ferreira. Já a coordenadora do Crami arrisca uma estimativa de que apenas cerca de 50% dos casos acabam chegando aos órgãos de proteção aos jovens.
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Divã de famílias
O Crami sabe que boa parte da violência a crianças e jovens que chega ao seu balcão teve origem no próprio núcleo familiar. Por isso, o trabalho de acompanhamento não se restringe apenas à vítima da agressão, mas aos pais e mães, principais autores das agressões. Nos casos deste ano, segundo o levantamento, 54,6% da violência foram praticadas pelas mães, 13,4% pelos pais e 10,3% por ambos.
O motorista desempregado José (nome fictício), acompanhado pelo Crami há cerca de quatro anos, juntamente com a esposa e o mais velho de três filhos, diz que chegou ao serviço através de uma denúncia da sogra - falsa, segundo ele -, mas admite que sempre bateu no garoto, hoje com 11 anos. “Achava que era a melhor maneira de corrigi-lo”, explica-se.
Poucos minutos de conversa com a reportagem, durante atendimento no Crami, revelaram porém a fragilidade das relações familiares na casa de José, situação que, segundo o órgão, gerou o cenário favorável às agressões. Em constante conflito com a mulher e a sogra, o motorista acusa ambas de “desautorizarem” suas ordens e culpa a esposa de também agredir o filho.
Durante as sessões de acompanhamento, as assistentes sociais do Crami orientam o motorista com relação à sua conduta diante da família. Para José, funcionam como uma “válvula de escape” dos conflitos familiares. “Não tenho ninguém para confiar e conversar. Aqui eu me sinto bem porque consigo desabafar”, confessa.
Com o acompanhamento do Crami, José até admite que o comportamento do filho melhorou e que as surras diminuíram. Porém, revela que praticamente não conversa mais com o menino. “O moleque não me respeita. É difícil dar amor a uma pessoa que só me maltrata”, comenta. Mesmo assim, ainda espera reatar uma relação amigável com o filho. “A esperança é a última que morre”.
• Serviço
O telefone do Crami para solicitação de palestras e denúncias de maus tratos é o (14) 3238-3000. O Conselho Tutelar mantém um serviço gratuito de disque-denúncia através do número 0800-770002.