O cotidiano sofrido dos moradores de rua, que virou manchete mundial depois de uma onda de crimes brutais na Capital, parece não fazer parte da realidade de um casal de pedintes de Bauru. Paulo Aparecido Alexandre, 27 anos, e Gilmara Cleusa Maria Natasha, 46 anos, aproveitaram um recuo de calçada na quadra 1 da rua André Padilha Sobrinho, no centro da cidade, para construir o que para eles é o tão sonhado “lar, doce lar”. O local é a entrada de carros de um estabelecimento que se mudou para outro prédio.
Analfabetos e pedintes assumidos, Paulo e Gilmara ignoraram os conceitos modernos da engenharia e recorreram a pedaços enrugados de madeirite, cabos de vassoura e algumas pedras para erguer o abrigo que os tem livrado do incômodo de dormir ao relento. Freqüentadores da região há cerca de seis anos, os pedintes só resolveram erguer o abrigo há pouco mais de um mês.
Mas, para dar à “construção” um aspecto de lar, os pedintes decoraram aquele canto de calçada com um quadro desbotado de alguma paradisíaca praia do Caribe, emoldurado com coqueiros e com um mar azul ao fundo. Em outra parede, Gilmara colou a “palavra de Deus”, recortada de uma revista evangélica achada no lixo. O quadro, também encontrado na rua, foi idéia de Paulo. “Coloquei (o quadro) porque a natureza é bonita e eu gosto dela”, explica, sem admitir, no entanto, que já tenha sonhado em acordar naquela paisagem.
O conforto do lar não se limita à decoração. O espaço da “casa” é equivalente ao tamanho de um cobertor dobrado que serve de colchão do casal, devidamente arrumado com dois travesseiros na cabeceira. O guarda-roupas, mais modesto, é um saco plástico de lixo. Para completar a estrutura, um rádio de pilhas, comprado no camelô, que anima as noites do casal. “Mas só até as 10 horas (22h), para não incomodar os vizinhos”, ressalta Paulo.
Para as necessidades fisiológicas, os pedintes recorrem aos banheiros da Praça Rui Barbosa ou de uma igreja evangélica vizinha. Banhos, segundo eles, só de vez em quando num banheiro de uma igreja católica na Vila Cardia. A roupa suja é lavada em um ponto de táxi que fica nas proximidades. O abrigo não tem porta da frente nem dos fundos - é uma espécie de túnel -, mas é fechado aos curiosos da rua com um tapume nos momentos de intimidade do casal. “A rua tem pouco movimento, mas para namorar a gente fecha na frente”, diz o pedinte.
A rotina de tranqüilidade do casal só é quebrada quando a natureza se revolta. Em dias de chuva intensa, o abrigo sucumbe à força das águas e os pedintes retornam às marquises dos prédios onde sempre dormiram antes de se instalar na calçada. Quando o tempo melhora, Paulo e Gilmara juntam o que sobrou e reerguem a cabana, operação já realizada pelo menos duas vezes desde que se instalaram no local.
Os vizinhos, aparentemente, não reclamam da presença do casal. Cláudio Milani, dono de salões de beleza no Centro e morador na rua André Padilha Sobrinho há três anos, não vê problemas na presença de Paulo e Gilmara. Ele revela, inclusive, que os ajuda com fornecimento de água e comida. “Não há transtornos. Quando vejo que há sujeira deixada por eles, reclamo e ambos, prontamente, a limpam”, diz.